sexta-feira, 12 de junho de 2009

A nossa Primeira Dama

A blague infeliz com que a mulher do prefeito quis ofender o seu adversário político mais próximo – o deputado estadual padre Afonso Lobato – de quem a panela política da cidade vislumbra a possibilidade de vir a abiscoitar a cadeira do seu marido, não foi de todo pornográfica. (Só aqui entre nós: suas aparições na mídia local rendem hilariantes tiradas que já alcançaram até mesmo o jornal de maior circulação do Brasil, em uma coluna de humor de um dos mais inteligentes colunistas do país.). Mas... Dessa vez ela passou dos limites.
Evidente que não vou reproduzir aqui a piada da mais ilustre ocupante do prédio da CTI, mas registrar que foi uma brincadeira de muito mau gosto, ofensiva ao nosso bispo diocesano e à própria Igreja Católica. É possível que não tenha havido maldade da sua parte, mas reflete o seu despreparo e a indignidade com que se veste de primeira dama, um título que, me permitam, é para quem pode e não para quem quer.
Só para lembrar, eu cito três primeiras damas, às quais a nossa respeitada personagem se considera nivelada, ainda que com roupagem tupiniquim. Eu falo dessas mulheres enquanto primeiras damas, sem qualquer juízo sobre a sua pessoa, independente até de certas conviccões com as quais não posssamos concordar. Eu falo de posturas.
Jacqueline Kennedy, que nos anos 60, num país eminentemente protestante, assumiu sua condição de católica, conquistando a simpatia do mundo todo em aparições antológicas com seu marido e seus filhos, passando uma imagem boa de que a Casa Branca era uma casa de família. Aqui no nosso Brasil, uma menina de apenas 24 anos foi, talvez, a primeira dama mais festejada, não só pela sua beleza, mas pela doçura com que acompanhava seu marido nas batalhas políticas que culminaram com o Golpe de 64: Maria Tereza Goulart. Outra grande primeira dama – esta, sim, carismática – Rute Cardoso, que legou ao nosso país não somente projetos sociais sérios e apolíticos, mas principalmente a missionariedade com que desempenhou o seu papel. Note o caro leitor que todas elas viveram à sombra do marido, o verdadeiro personagem do teatro político. Em todas elas o marido sentia prazer de voltar para a casa depois de cada guerra que travavam no seu dia-a-dia. E foi, por causa dessas mulheres que se formulou o ditado de que “por trás de um grande homem existe uma grande mulher”. Esse “por trás” não representa inferioridade da mulher ou prevalência do marido. Significa que é ela quem apoia, quem segura, quem mantém o equilíbrio do parceiro. São contrapontos numa relação política em que o homem é extremamente vulnerável.
Eu poderia escrever um livro inteiro sobre essas considerações só para mostrar à nossa respeitada personagem o que é ser primeira dama. Mas não vou gastar o meu latim com quem tropeça no vernáculo.
Por que eu disse que a infeliz chacota destemperada pela Dama da CTI, não foi de todo pornográfica? Porque ela serviu para a seguinte reflexão.
A nossa verdadeira Primeira Dama não nasceu em Taubaté, o que não constitui exatamente um empecilho para a nossa veneração. Ela não tem sobrenome estrangeiro, nem se veste das melhores grifes. Não consta que tenha cursado a universidade e, se abusar, nem mesmo o ensino fundamental. Não frequenta os melhores restaurantes, nem promove festas para baba-ovos. Não concede títulos de mulher do ano, nem faz discursos sejam eles ditados pelo seu ghostwriter, ou proferidos de improviso. Não administra qualquer departamento ou instituição de assistência social, nem distribui cestas básicas a uma fila de pobres. Não samba na avenida nem acompanha o marido em coquetéis. Aquele com quem se casou não ocupa uma posição de mando, que é, na verdade, ocupada pelo seu filho, que é solteiro. Esse, sim, é o bambambam. E é bonito ver a relação dos dois. Ela exerce uma enorme influência sobre ele, mas quietinha, com um jeitinho que, se ela fosse daqui, eu diria “mineiro”.
Foi com esse jeitinho que, numa festa de casamento a que foram convidados, quando havia acabado a bebida, ela fez uma carinha tão doce – eu imagino a ternura com que ela o abordou... – e se voltou para o filho que se divertia com os amigos, sempre falando coisas bonitas e dando o seu recado. (Ele não perdia tempo). “Filho! Eles não têm mais vinho!”. Ela se preocupou também com o brilho da festa, com o carão que o anfitrião ia ficar. Veja: ela tem sensibilidade. E, com esse apelo, ela desencadeou toda uma vida de grandes maravilhas que o seu filho pôde realizar. (Lembre-se de que ele mesmo teria dito que aquela não era a sua hora).
Terna e corajosa, solidária até à morte do seu menino, então um jovem visionário de 33 anos, que, grandão daquele jeito o pôs no colo, desfigurado pela crueldade. Até o finzinho ela esteve com ele. E, como tantas outras damas que lhe seguiram o exemplo – Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Madre Paulina ... – assumiu por filhos toda a humanidade, que até hoje, passados mais de dois mil anos, carrega no colo nos momentos mais difíceis, com a ternura de mãe. E que por eles está sempre pedindo um milagre ao seu filho, com a postura de uma verdadeira Primeira Dama. Mais do que isso: uma Mãe-Rainha.Pois é ela quem olha pela nossa diocese. Não se chama Jacqueline, nem Rute, nem Maria Tereza. Mas é Maria. Simplesmente Maria.

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