domingo, 21 de junho de 2009

Pra quem come, bebe e dorme futebol

Normalmente, quando faço alguma consideração crítica sobre determinado assunto ou fenômeno social, religioso ou político, procuro dar sempre uma direção que leve o leitor a pensar em transformação, construção de uma realidade diferente, para que a minha reflexão não seja um mero exercício de literatura. Mas, desta vez, sinto-me indignado e vejo com pouca esperança que meu discurso possa transformar alguma coisa, já que, do que eu vou falar, há toda uma cultura enraizada no coração dos homens, que me faz acreditar que muito pouco se possa fazer para mudar a realidade. Fica o registro da minha indignação.
Poucos dias atrás, a grande massa de torcedores brasileiros – especialmente os que comem, bebem e dormem futebol – viu-se envaidecida porque um dos nossos craques que brilhava nos campos da Itália transferiu-se para o futebol espanhol pela bagatela de 65 milhões de euros, que correspondem a quase 200 milhões de reais. O pobrezinho, justificando a infidelidade com a torcida milanesa, alegou que a crise também tinha batido às suas portas, ensejando a milionária transação.
Coitadinho! Tão bonzinho! Dizem seus fãs apaixonados que – tão bonitinho... – ele destina uma porcentagem da sua renda para a sua igreja – desmascarada como a maioria das igrejolas de porta de boteco, com a prisão do casal de pastores, como uma empresa brasileira com ramos em outros países, que explora a fé, oferecendo seu produto mais atraente: a teologia da prosperidade. (Em tempo: toda imprensa referiu-se à mulher do pastor como “bispa”. Desde meus onze ou doze anos eu sei que o feminino de bispo é episcopisa). Bem... estou viajando. Não era da episcopisa que eu queria falar.
Daquela grana toda que o Milan embolsou do Real Madrid, dizem os entendidos, o meia (é esta mesmo a posição do moleque?) deve receber 9 milhões de euros por ano, ou seja, 27 milhões de reais; ou, ainda, como gostam de calcular os embevecidos fãs do jogador, 75 mil reais por dia, limpinhos. Houve quem dissesse que seriam 260 mil reais a cada vinte e quatro horas, juntando os outros “benefícios” (parece coisa de pobre...) que incluem milionários contratos de publicidade.
Fala sério! Nada mais imoral num planeta em que a fome endêmica atinge 800 milhões de pessoas!
E eu, aqui, rezando meu Pai Nosso, e engolindo um simples risoto de frango com a consciência pesada, me lembrando de umas carinhas pretinhas, crianças esquálidas que se mumificam em vida porque não têm o que comer. A humanidade é cruel. Quem não faz, aplaude a injustiça social em todas as suas formas de expressão, especialmente naquelas em que a mídia elege alguém para comer bem pelos 800 milhões de pessoas que passam fome. Aqui entre nós: o garoto não tem culpa. Ele até deve fazer a sua mediazinha com Deus para minorar o sofrimento de uma meia dúzia de excluídos. O pecado é estrutural. A fome não é fruto do subdesenvolvimento. É, antes de mais nada, a expressão mais aviltante dos males sociológicos, todos eles gerados no coração dos homens e não nas Bolsas de Valores da Wall Street.
A riqueza da humanidade é um dom de Deus. Quem bom seria se milhões de moleques da periferia pudessem estar ganhando – não vá longe... mil reais por mês – jogando bola! Mas com a certeza de que em Serra Leoa, Calcutá, Piauí ou Quiririm não houvesse uma criança sequer com a barriguinha estufada de vermes, cheia de fome e desamor! Mas os biliardários do petróleo, especuladores, contrabandistas, traficantes, usurpadores, latifundiários e... políticos preferem investir esse dinheiro todo num garoto bem nascido, bem nutrido, bem apessoado que, na verdade, nem sempre corresponde às expectativas da torcida, marcando um golzinho que seja nos noventa minutos em que dá um duro danado para honrar seu escandaloso salário. Veja o exemplo do fofinho que está jogando no clube de maior torcida de São Paulo: o garoto anda em campo! Ele é até esforçado, mas não consegue se mover para justificar seus 50 mil reais que ganha por dia!Desculpe-me, leitor, que o meu artigo tenha sido assim tão pessoal. Não sou eu, nem é você que vai dar um jeito nisso. Se nós não conseguimos estancar a bolha inflacionária nas transações do futebol, nos é, no entanto, possível minorar o sofrimento de tantas criancinhas para as quais o futebol não dá a menor bola. Mas continue rezando o Pai Nosso sempre na primeira pessoa do plural. Pai nosso! O pão nosso! E não se sinta um meio-campista da vida que tem por dia o que dá para matar a fome de pelo menos 10 mil pessoas a cada vinte e quatro horas em que se come, bebe e dorme futebol.

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