sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Considerações sobre o nosso Hino Nacional

A proximidade com a Semana da Pátria nos reserva algumas reflexões sobre o nosso belíssimo Hino Nacional que, sem qualquer corujice, podemos atestar como um dos mais bonitos de todas as nações. A emoção de ouvi-lo fora do nosso país é de uma força imensurável, assim como ouvi-lo em solenidades muito especiais que acontecem em nossa vida como, por exemplo, em formaturas, premiações... Ainda que venha sendo banalizado por ser executado em partidas de futebol sem a menor importância cívica, o nosso Hino ainda nos causa arrepios e um nozinho na garganta.

No entanto, se a verve poética de Duque Estrada nos legou tão exuberantes imagens de uma nova nação nascida sob o signo de um sol de liberdade em raios fúlgidos, o grito de Dom Pedro I, que nos deu a independência, não conseguiu, ainda, livrar-nos dos perigos da morte como nação próspera, justa, solidária, igualitária. O nosso primeiro imperador colocou como opção de garantia da igualdade a independência ou a morte. Entretanto, passados quase 190 anos do grito do Ipiranga, ainda não conseguimos o penhor dessa igualdade decantada pelo poeta, e o nosso peito continua desafiando a própria morte, representada pela extrema distância entre os filhos desta mãe gentil, que vai da riqueza imensurável de uns poucos à miséria degradante de uma multidão de excluídos que ainda não conseguem ver poesia na imagem do cruzeiro que resplandece sobre suas cabeças sem teto.

Mas nós – nós todos: os locupletados pela extorsão, os caminhantes da prosperidade, a classe média extorquida pela crueldade da gula fiscal, os pobres que o Presidente afirma terem saído da linha da miséria, e os miseráveis que não frequentam as curvas de evolução das pesquisas oficiais – todos nós ainda conseguimos encher o peito para cantar o nosso Hino e nos indignarmos com o pouco caso de um jogador mexicano que fazia ostensiva e provocantemente o seu alongamento durante a execução da nossa música maior.

Assim, não nos cabe qualquer menção pejorativa à poesia maravilhosa de Duque Estrada, mas, pelo contrário, cabe-nos servir de suas palavras para um reflexão sincera de quem vive ainda um sonho intenso de liberdade e independência, mantendo aceso aquele raio vívido de amor e de esperança que à terra ainda desce em dias de tamanhas desigualdades, sinais de morte que a nossa independência não conseguiu afastar.

Mas nós, gigantes pela nossa própria natureza, impávido colosso, somos fortes na esperança que ainda espelha a grandeza que haveremos de conquistar. Não para uma nação virtual e simbólica que ilustra os nossos livros de civismo. Mas representada no lar de cada brasileiro, onde a mãe gentil tenha comida para pôr à mesa, tenha condições para dar uma educação de qualidade para seus filhos, saúde para que eles tenham força para sustentar a clava forte que os sustentará diante da morte, tranqüilidade e paz social que os permita andar na rua como se caminhassem pelos risonhos, lindos campos, onde têm mais flores, ou pelos bosques onde a vida tem mais amores.

Estamos, de novo, às margens do Ipiranga, agora representadas pelas nossas seções eleitorais onde o grito de independência se dá num apertar de botões de uma maquininha de votar. É uma oportunidade de honrar o nosso lábaro que se ostenta estrelado, símbolo de um amor eterno que nos faz sentir, cada vez mais que, entre outras mil, a nossa pátria é a mais amada, idolatrada, a nossa mãe gentil que ama seus filhos sem discriminação. A espada de Dom Pedro, agitada para o alto é hoje o nosso dedo indicador brandindo no pequeno teclado os sonhos que sonhamos de um país realmente independente e justo, do qual possamos nos orgulhar não só nas vitórias do futebol, mas na paz social que, com certeza, não exclui a pobreza, mas permite ao pobre viver com dignidade, com a esperança de prosperidade que hoje lhe é negada, com oportunidades iguais para todos de subirem, aos poucos, os degraus de sua condição social.

Pense nisso! Especialmente ao escolher os nomes para o Congresso Nacional – Câmara Federal e Senado – pois são eles que, numa democracia verdadeira, podem traçar os caminhos do progresso para todos os que ouviram o grito do Ipiranga e esperam até hoje que, diante da nossa glória no passado, a paz não venha somente no futuro, como aludiu o poeta, mas encha hoje os nossos lares de esperança.

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