sábado, 14 de agosto de 2010

Editorial Rádio Cultura Taubaté 790 AM (06.08.2010)

Ser pai
Henrique Faria

Domingo próximo é dia de festa. É verdade que já não existe mais aquele clima de a mãe expropriar alguns tostões da carteira do “velho” para que os filhos possam comprar seus presentes. Aliás, nem tanto presente se dá assim hoje em dia. A festa perdeu um pouco a magia e não é porque somos velhos... Diga-se de passagem, que quanto mais velho, mais encanto tem o pai. Mesmo que não tenha sido lá essas coisas na juventude.

Hoje não é tão fácil extrair poesia do pai, mas a televisão está cheia delas porque para se vender se fazem milagres. Mas ainda se pode encontrar um pai poético que seja maduro sem deixar de ser criança. Ou que tenha experiência sem perder a adolescência. É possível que o pai seja um filho crescido, um jovem contido.

Mas pai que é pai, é mãe no seu desvelo, guardião de tanto zelo. Ser pai é chorar escondido quando tudo dói. É brincar de ser bandido pra que o filho seja herói.
Ser pai é tão engraçado, as mães comentam entre si que ele é um desastrado. Ser pai é dormir enquanto a mãe acorda; é ler jornal enquanto ela borda. É atrapalhar-se na cozinha; é não atender a campainha.

Ser pai é não inspirar poesia; é não ser toda magia que ser mãe a gente diz. É ser um eterno aprendiz. É aprender com o filho, mas dizer às vezes a ele que já fez aquilo e não deu certo. É estar perto quando o filho vaza pras baladas, dizendo sempre pra mãe “olha seu filho que ele anda esquisito...” É dormir, roncar como um imperador romano depois de um banquete; é sonhar, enquanto a mãe... coitada... não prega os olhos antes do filho chegar.

Como cansa ser pai...

Mas nem tudo é poesia. Talvez a poesia nos inspire ao lembrar do nosso pai, hoje velhinho, que dá ele mesmo as suas risadas, coitadinho...
Nem sempre foi amigo do seu filho, mas a pedagogia moderna nos remete ao pai antigo, da bronca, do castigo. Acho que ele estava com a razão. Já não cabe mais a vara de marmelo – que era coisa de mãe – ou chinelo... mas deveria haver alguns limites que talvez os pais de hoje não tiveram quando eram filhos. O mundo evolui muito e os direitos humanos alcançaram a intimidade dos nossos lares onde não se pode dar nem mais umas palmadas.

Hoje se volta ao pai que não precisa ser amigo coisa nenhuma do seu filho, pois amigos eles os têm muito mais interessantes da sua idade. O pai precisa ser disciplinador, com ternura, é verdade, porque o filho precisa de limites.

Os pais que trazem a vida de bandeja aos seus filhos podem ter desagradáveis surpresas, quando ele achar que a vida é do jeito que o pai pintou, tratando-o como um boneco, um bichinho de estimação.

Bem...

Acabou a poesia? Acabou se ficarmos espreitando o interior dos nossos lares, se vemos o pai mandar a mãe apanhar tudo o que o filho jogou pelo chão, consertar romanticamente os carrinhos que ele destruiu...

Já não vemos mais poesia nos pais que não ensinam os seu filhos a rezar, que não os chamam mais de “senhor” e não lhes pedem a bênção antes de deitar. Nem nos pais que não chegam até a cama dos seus filhos pra lhes dar um beijo de boa noite, não importa a idade que ele tenha: quinze, dezoito, vinte e um. Mais tarde, os filhos viram todos beijoqueiros, mas é nessa idade que mais precisam do beijo do pai.

O pai, coitado... também envolvido no relativismo que virou a nossa sociedade, já não sabe o que é certo, o que é errado, o que é moral e imoral. Há muitas filhas adolescentes, que ainda não têm seu próprio dinheiro, que precisam da carteira do pai pra comprar seus anticoncepcionais; ou os garotos – a quem eles dão com todo orgulho – que lhes pedem grana para a camisinha ou uma noitada no motel.

É difícil ver poesia no pai consumista, que exibe ao filho seu poder de compra e seu status, passeando no shopping aos sábados à tarde quando poderia estar num parque rolando na grama e se borrando todo pra fazer gracinha pro filho. O pai materialista tem horror aos perrengues da vida e procura facilitar tudo para o filho para que ele não passe dificuldades e não aprenda com os revezes que a vida não é fácil e que ele tem que superar sozinho, quando possível, seus obstáculos.

Bem... nós não vamos ficar aqui até amanhã falando das mazelas de um pai que não inspira poesia.

Afinal, seja como for, ele é o nosso herói. Bandido coisa nenhuma! O nosso super-homem, o nosso deus!
Deus? Não! Mas um homem, como diz o nosso poeta Fabio de Melo, no seu jeito finito de ser Deus, que nos revela Deus no seu jeito infinito de ser homem.
Vamos fazer a festa! Feliz Dia dos Pais!

Nenhum comentário:

Postar um comentário