sábado, 14 de agosto de 2010

Editorial Rádio Cultura Taubaté 790AM (23.7.2010)

Diferenças abissais determinam a existência de dois países chamados Brasil. Um, o da realidade; outro, o da fantasia. O Brasil real nós, pobres mortais, o vivemos sob uma carga tributária escorchante que não reverte no bem-estar em que vivem os apregoadores do Brasil da fantasia. Por muito menos, outras nações, muito mais avançadas do que a nossa, deram um grito de basta que, em alguns casos, até algum sangue custou. Mas nós, brasileiros do país da realidade, somos um povo de paz, que só briga mesmo em campo de futebol e em dias de apuração de concurso de desfile de escolas de samba. Já os brasileiros do país da fantasia, não! Eles matam um leão por dia para se manterem no sétimo céu.

O Brasil da realidade, por sua vez, tem várias castas. Do miserável que passa fome – a fome endêmica, histórica – ao cidadão médio que tem o que comer, mas passa apertos, alguns sem salários no fim do mês por desemprego ou por penduras consignadas que amarga em seu contra-cheque. Dos quase seis mil municípios brasileiros, pouco mais de trezentos apresentam um padrão de vida adequado, segundo pesquisa desenvolvida por técnicos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O Brasil da fantasia não tem castas. É difícil, inclusive, identificar seus felizardos cidadãos entre a massa que circula entre os dois países. Eles vivem a realidade fantástica das propagandas oficiais que mostram o Brasil como o maior produtor de carne bovina do mundo, o segundo produtor de soja, o dono da quarta maior empresa de petróleo do planeta, entre outras ufanias alardeadas pela propaganda oficial.

No entanto, no Brasil da realidade não se pode comer carne todo dia – nem de vaca, nem de frango e, muito menos de peixe, que beira o proibitivo e o indesfrutável. Procure os produtos de soja nos supermercados e veja se é possível manter o hábito alimentar que aconselha o uso desse produto nas refeições básicas de qualquer pessoa. E experimente encher o tanque do seu carro – evidentemente dos que podem desfrutar desse luxo, alguns porque conseguem manter um carnê com sessenta ou setenta e duas folhinhas, nem sempre em dia – e você vai sentir o drama de despejar ali um chorado e significativo percentual do seu salário. Para quê servem tanta carne, tanta soja, tanta gasolina?

No país da fantasia o sistema unificado de saúde trata com desvelo os seus doentes, promove a saúde preventiva através de Ames, policlínicas, unidades básicas, assistência odontológica que faz dos dentes dos cidadãos do país da realidade os mais brancos, os mais saudáveis, os mais platinados em seus aparelhos corretivos. É no país da fantasia que não existe analfabetismo, violência, corrupção, tão comuns no Brasil da realidade, que aqui mesmo, em Taubaté, você encontra gente que não sabe ler nem escrever, nem precisando ir nos cantões do Jequitinhonha; ou que assiste a pelo menos dois ou três crimes por dia – dos que dão audiência na televisão – ou gente corrupta que assalta o nosso bolso na cara-dura, enquanto nos dá um abraço, em tempos de eleições, aos sábados na praça Dom Epaminondas.

Preste atenção nas propagandas oficiais na sua TV. Tanto as do governo estadual como as do federal. Entre tantos hospitais que o governo construiu, você conhece algum aqui em nossa região? Aqui morre gente todo dia por deficiência no atendimento de emergência; não se conseguem internar pacientes que precisam de internação, por falta de leitos.
Na maravilha que arautos do Brasil da fantasia apregoam sobre os avanços na educação, você vê algum resultado aqui na sua cidade? São pífias as expressões de realidade na política de democratização do ensino universitário, já que o tal de Pro-Uni, ou coisa parecida, beneficia muito poucos alunos e não atinge um por cento da massa carente de estudantes que terminam o segundo grau e não podem entrar na universidade. O preço da nossa universidade pública local, que se esconde sob o manto de autarquia, chega a ser pornográfico.

O Brasil da realidade amarga a destruição das cidades nordestinas há menos de um mês, e acompanha a humilhação dos seus moradores espremidos em escolas e ginásio de esportes, que não terão como refazer a sua vida com dignidade, enquanto o Brasil da fantasia calcula em bilhões de reais os custos de investimentos em campos de futebol, reforma e construção de aeroportos, implementação de trem-bala para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Infelizmente, o povo do Brasil real – coitado, até mesmo aquele povo flagelado – vai ficar orgulhoso do país de que tem e que aos olhos do mundo vai dar um show de organização e eficiência, quem sabe, assistindo aos jogos através de telões instalados nos ginásios de esportes e colégios que poderão estar abrigando uma nova turma de sem-teto.

Que esta reflexão possa ser ampliada por você que, com certeza, está alinhando muitas outras mazelas que nos separam do Brasil da fantasia. E é isso, caro ouvinte, que você deve fazer a partir do início da campanha eleitoral na televisão e no rádio, quando a nossa inteligência será subestimada por uma propaganda avassaladora que vai pintar o quadro do Brasil da fantasia. Avalie o Brasil real e deixe a fantasia para a novela das nove.

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