sábado, 14 de agosto de 2010

A maioria católica pode mudar as estruturas

Henrique Faria

Com inicio previsto para a próxima terça feira, a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão promete nos aborrecer ao máximo, acrescentando muito pouco para que se possa formular um juízo seguro de cada candidato. O primeiro debate na televisão dos candidatos à presidência da república revelou o que deverá ser a tônica. Com exceção daqueles que não têm a menor possibilidade de vencer o pleito, e que podem disparar chumbo grosso para os seus adversários, os debates deverão ser aquela coisa pastosa, cada qual se superando em repetir os mesmo jargões, as mesmas promessas, os mesmo projetos mirabolantes de se dar ao país uma educação, segurança, política de saúde de primeiro mundo. Um discurso requentado que já vimos em tantas outras eleições.

Os próximos quarenta e cinco dias serão um festival de apertos de mãos, de sorrisos fáceis, até mesmo no rosto da candidata que passou oito anos com cara de enfezada no governo que agoniza. Não se pode ignorar que a tendência é a vitória vai recair sobre um dos dois atuais líderes de pesquisas, já que o brasileiro só aposta em cavalo que corre na frente. Este o grande mal do eleitor médio brasileiro. Ele vota como quem joga. Se, por um milagre da propaganda eletrônica – sim, ela é a deusa das eleições – o terceiro candidato ou terceira candidata começar a disparar, com consistência, ameaçando o segundo (ou segunda), pode ter certeza: o eleitor médio o verá ou a verá com outros olhos. Mas é preciso um arranque que convença o apostador. Os outros candidatos são meros figurantes. Estão ali para exporem seus nomes, beliscar um tostãozinho aqui outro ali, e, nos debates, a serviço dos cobras-criadas, como paus-mandados para atazanar a performance do adversário.

No plano estadual, a coisa não muda nas candidaturas ao mandato majoritário. Em São Paulo, o líder nas pesquisas corre com uma certa tranqüilidade, quem sabe arrancando a eleição até mesmo no primeiro turno. Mas o bicho pega mesmo é nas eleições proporcionais. Candidatos a deputados estaduais e federais se comem, num vale-tudo quase homicida, na tentativa de arrancar do cidadão o seu precioso voto. Na praça Dom Epaminondas se poderá ver ao vivo essas figuras que de quatro em quatro anos nos dão um abraço apertado, às vezes nem mesmo falando em política. Mas querem que a gente saiba que somos amigos desde criancinhas. Alguns franco-atiradores vêm de longe caçar alguma coisa por aqui e... até levam, graças ao serviço competente de alguns cabos profissionais, que nem ganham tanto assim para cabalar os votos dos forasteiros.

Vamos reconhecer: eleição é uma festa. Principalmente para cabos e generais – estes, que mesmo não sendo militares têm o poder sobre um exército de inocentes-úteis. O circo que se arma em todos os níveis de comunicação – seja na rua, no rádio, na TV, nas igrejas, seja onde for... – não oferece a menor condição de um discernimento maduro para a escolha, por si só. É preciso que o eleitor esteja esperto para avaliar os discursos, na maioria deles, demagógicos.

Nós, católicos, insistimos em não atinarmos para o nosso poder, no mínimo pela quantidade de cidadãos que somos em todo o Brasil. Nós somos quase 80% da população. Nós temos o poder de mudar as estruturas políticas e sociais. Basta sairmos das igrejas – levando Deus no coração, é claro... – e nos aventurarmos no meio do povão, levando a todas as pessoas que conhecemos o que deve ser a proposta do bom candidato. Essas propostas estão compiladas em um único Projeto político, que nós conhecemos de sobra, e nem sempre sabemos identificar o seu caráter social, porque... Ora... Por que? Porque nas igrejas estamos preocupados em louvar o Senhor, adorá-lo em seu trono de poder, quando, na realidade ele está aqui do nosso lado, sujeito do Projeto social que ele mesmo delineou para que nós o executemos. Esse Projeto político e o Projeto da Salvação de que nos falam os que só entendem a linguagem dos anjos, são exatamente a mesma coisa. O Projeto de Salvação começa aqui, neste mundo, onde leva o nome de Projeto social e político. Ele não é inspirado em Jesus. Ele é a própria pessoa de Jesus, que se fez um projeto vivo de cura, de libertação, de bem-aventurança, que nós, mais próximos do Jesus que anda ao nosso lado, chamamos de felicidade.

Como identificar o político que defende esse Projeto? É muito fácil. É o político que defende a vida. Nós temos assistido a luta sangrenta entre alguns “gatos pingados” heróis da nossa Igreja, que se estrebucham pelos corredores do Congresso Nacional, com os políticos que são contra a vida. A tentativa de se favorecer a descriminalização do aborto, por exemplo, é o sinal mais claro do pouco caso que a maioria dos políticos fazem do nosso povo em geral, e da nossa Igreja em particular. Nós sabemos que, graças a Deus, 75% do povo brasileiro é contra o aborto. No entanto, por causa de meia dúzia de safados mal escolhidos, há grande possibilidade de a lei favorável ao aborto passar, sem que demore muito tempo para isso. Isso porque, provavelmente a pessoa em quem você pretende votar, é favorável ao crime de se tirar a vida de um inocente, com a “bênção” do governo.

Nem precisa saber muita coisa do seu candidato. Basta saber a sua opinião sobre a defesa da vida. Se for candidato novo, é mais difícil, é verdade. Mas se for candidato que já freqüenta há tempos as nossas campanhas eleitorais, é muito fácil você identificá-los. Você tropeça em candidatos a presidente, a governador, a deputado estadual e federal que sejam contra a vida. Seja esperto.

Vamos mudar esse cenário eleitoral. Desmanchar esse circo armado pelos profissionais das eleições para transformá-lo num grande fórum de discussões que possam, de fato, amadurecer o nosso discernimento. Recordando: nós, católicos, temos o poder de transformar esses projetos demagógicos que se estendem nos mesmos teores e não são implementados há décadas, em um Projeto Social e Político que seja o Projeto da Felicidade, que só no evangelho de Jesus encontramos desenhado.

Mas será preciso coragem para mudar de postura, especialmente a nossa de Igreja, que fazemos coro a essa horda de demagogos em que vamos tropeçar até outubro.
Editorial Rádio Cultura Taubaté 790 AM (13.08.2010)

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