sábado, 14 de agosto de 2010

Maquininha de fazer milagres

Henrique Faria

Há um certo pudor, injustificável, por parte de setores da Igreja, especialmente os mais conservadores e fundamentalistas, em abordar o assunto político-econômico-social à luz do Evangelho de Jesus, como se ele tivesse vindo à terra para nos levar ao céu como seres transformados em anjos. No entanto, a Igreja, não só de hoje – especialmente aqueles setores que causam urticária nos nossos santos alienados – mas a do tempo dos primeiros apóstolos também, tem uma preocupação expressa com o nosso bem-estar material.

Na verdade, não existe Igreja conservadora e Igreja progressista. A Igreja é uma só, fundada no Evangelho que, em nenhum momento, foge da discussão política. Existem, isso sim, católicos conservadores e católicos progressistas; aqueles, mais centrados no discurso fundamentalista que vivem a fé mais voltados para o metafísico; e estes, às vezes exageradamente voltados para a leitura meramente sócio-política dos evangelhos. Nenhum dos dois extremos é o ideal. A virtude está no meio.

Dentro desta perspectiva, procurando configurar a figura de Jesus Deus e Homem com a nossa história do aqui e agora, procuramos fazer uma leitura da sua mensagem de forma que atenda às nossas necessidades temporais, já que foi ele mesmo que disse que veio para que todos tenham vida e vida em abundância. Jesus não ignorou a nossa condição humana, de quem pretende e merece ser feliz já aqui nesta vida. E se preocupou com as diferenças que os homens estabeleceram entre si, uns – os que têm mais – oprimindo os outros, os que têm menos ou nada têm. Na raiz do seu discurso político está a sua preocupação com o nosso bem-estar. No entanto, o Pai não delegou a ele o poder de transformar a nossa vida num passe de mágica sem o nosso concurso.

Não é preciso ser católico ou de qualquer outra religião para entender o papel do homem na criação. É visível até mesmo a um ateu que cabe ao homem manter o equilíbrio da natureza em todas as suas manifestações, não só no aspecto do meio ambiente, mas das relações humanas que exigem uma harmonia entre os seres pensantes para que todos vivam em paz. Aqui entram as nossas relações políticas.

Nessa multidão incontável de pessoas que buscam a felicidade é preciso que haja uma escala, não de valores, mas de gestão das relações humanas. É quando a gente escolhe alguns semelhantes nossos para manter a ordem na casa. Aliás, “economia” quer dizer exatamente isso: “ordem na casa”. Jesus não dispensa o poder. Quando provocado sobre a sua situação de cidadão governado pelo poder romano, colocou-se no seu lugar, dizendo que se atribuísse a César o que era de César. Ele não ignorou o poder político. Há, também, inúmeras manifestações suas sobre economia, quando ela fala em moeda, em poupar, em esbanjar; sobre saúde – neste aspecto, o evangelho é riquíssimo em fatos que demonstram um Jesus sensível com a dor, a doença, a morte –; em segurança; em educação – Jesus foi um grande pedagogo.

Por que, então, não nos espelharmos em Jesus quando temos que escolher as pessoas que devem “pôr ordem na nossa casa”? O momento é agora: as eleições, quando podemos escolher pessoas sintonizadas com o projeto social-econômico-político que Deus delineou para que tenhamos vida em plenitude. Nós insistimos, como já dissemos em editoriais anteriores, que o Projeto de Salvação, que teve em Jesus-homem o seu objeto e instrumento de implementação, tem em nós os seus sujeitos e agentes, implementadores e construtores da nossa própria felicidade.

Como escolhermos, entre as pessoas que deverão deixar a nossa casa em ordem, pessoas que não estão alinhadas com os valores estabelecidos no grande projeto social-econômico-político que pode mudar a nossa vida? Como acreditar em pessoas que prometem há dez, vinte, trinta, quarenta e até cinqüenta anos as mesmas coisas: educação de qualidade, infraestrutura de saneamento básico, segurança, saúde, casa própria, emprego? Nós temos aí nessa eleição políticos que roubaram durante cinqüenta anos, pois há cinqüenta anos vêm prometendo as mesmas coisas que não cumprem, e há cinqüenta anos sendo eleitos por essas mesmas promessas. Se você buscar nos arquivos, vinte anos atrás, os discursos dos candidatos de hoje, que já foram eleitos e reeleitos, verá que as promessas são as mesmas. E daí? Eles passaram pelo governo e não resolveram? Isso nas duas instâncias do poder, o legislativo e o executivo.

Enquanto nós continuarmos aceitando a política como um deboche da nossa cara, o Brasil não muda. É preciso fazer uma revolução! Não uma revolução de armas, evidentemente, já que se ela não partir das Formas Armadas, morre no ninho. Mas uma revolução cultural. É preciso mudar a nossa cultura de fantoches, manipulados pelos dedos espertos daqueles que dirigem os nossos movimentos. Nem Deus, com todo o seu poder, nos fez fantoches! Ele nos deu o livre arbítrio para escrevermos, nós mesmos, a nossa história. E parece que não nos aproveitamos bem dessa prerrogativa, escrevendo uma história cheia de injustiça, opressão, violência, doenças – valores negativos que não estão delineados no Projeto de Deus.

Mais uma vez, como já insistimos em outras tantas, é preciso que nos conscientizemos de que somos maioria. Nós católicos, somados a outros cristãos que conhecem o mesmo projeto de libertação, somos massacrante maioria nesse país de eleitores que não levam a sério o seu dever de escolher bem quem pode fazer a nossa “economia”, ou seja, de colocar “ordem na casa”, redesenhando o Projeto de Felicidade que Deus escreveu para nós. Pense nisso antes de colocar o seu dedinho naquela maquininha milagrosa. Sim... Ela pode fazer milagres!
(Editorial Rádio Cultura Taubaté AM 790 – 20.08.2010)

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