sábado, 14 de agosto de 2010

Minha novela das nove

Henrique Faria
E já que falamos em Dercy – Deus a tenha... – dia desses, conversando com uma pessoa extremamente preconceituosa, fui questionado sobre o meu gosto por telenovelas. A pessoa, que me tem como um intelectual – que não sou e que tenho minhas reservas por quem é – ficou assombrada pelo meu gosto duvidoso, como se eu estivesse muito abaixo do seu nível cultural por assistir a novelas, enquanto ele – um católico até razoavelmente exemplar – lê bastante, especialmente os romances de mistério e suspense como os de Stieg Larsson, Dan Brown, John Sack, Richard D. Weber – todos no topo dos mais vendidos –, esculhambando a literatura de Paulo Coelho, Içami Tiba, Willian P. Young, Augusto Cury, entre outros e... (pasme!) o nosso querido padre Fabio de Melo. Eu leio quase todos os livros que o meu amigo lê, ou seja, tenho o meu gosto literário meio parecido com o dele, e, além disso, gosto muito de romances com fundo político, ou biografia de grandes personagens do meu tempo com análises aprofundadas da conjuntura em que viveram, não costumo ler obras de elucubrações filosóficas ou auto-ajuda, mas reconheço o seu valor. Não existe gente mais chata do que aquele que se acha intelectual, que lê alguma coisinha tão comercial como os livros de Paulo Coelho, mas com embalagem de literatura de fino gosto, quando, na verdade, também não acrescenta nada à sua vida, não o faz pensar, questionar, ter vontade de mudar a si mesmo e a sociedade. O que você apreendeu de O Código da Vinci? Anjos e Demônios? Nada! Mas não se pode negar que um livro de Içami Tiba ou Augusto Cury nos faça pensar... Você tropeça em gente que leu alguma obra de Fábio de Melo e deixou de ser o mesmo. Pra melhor, evidente! Então por que eu não posso ver telenovela?
Uma telenovela é um romance filmado, adequado, na maioria das vezes, à nossa realidade, enfocando temas pertinentes ao nosso dia-a-dia, como o aborto, a pedofilia, as drogas, a canalhice, a corrupção e, por que não, o amor? Mas tem uma linguagem pouco cristã, é verdade, já que os seus diretores e autores têm seu mundinho limitado às areias do Leblon ou aos barzinhos da Vila Madalena, se achando os donos da verdade quando defendem práticas imorais, especialmente no que dizem respeito ao sexo. Cabe a nós selecionarmos o que presta e o que não presta e tirarmos proveito do que é bom. O que não se pode é prejudicar o encontro da família, em torno de uma mesa de jantar, submetendo-se ao clarão TV, seja ele mostrando as novelas das seis, sete ou nove, ou a carinha de pidão de um evangelizador católico anunciando que a sua rede de TV ainda não conseguiu emparelhar o azul e o vermelho. A televisão não presta neste sentido: como desagregadora da família, da mesma forma que um pai se afasta dos filhos ou os filhos se afastam do pai e da mãe, frissurados em frente ao computador, ou lendo seu jornal.
Por outro lado, há que se impor horários e programas para os filhos. Uma criança ou adolescente não deve mesmo assistir às telenovelas. E devem ir cedo para a cama, ter seu computador na sala, na frente de todo mundo e não no seu quarto onde pode se fechar e navegar à vontade. Agora... eu... Bem... Enquanto minhas netas não estão em casa, mereço relaxar um pouco e ver o lado medíocre da vida na novela das nove.

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