sábado, 14 de agosto de 2010

Os palavrões da Dercy

Henrique Faria
A parábola contada por Lucas no terceiro domingo deste mês (22.09.2010) parece meio estranha. O administrador infiel se viu em apuros porque o patrão pegou as suas falcatruas e fatalmente o demitiria do emprego. O que ele fez? Chamou aqueles que deviam ao patrão – cuja dívida era ele quem administrava –, abriu mão dos seus lucros, diminuiu o débito de cada um e todos ficaram satisfeitos. Inclusive o patrão que viu na esperteza do seu administrador uma saída que não o deixou a ver navios. Evidentemente que aquilo que os devedores tiveram de desconto seria exatamente o que o administrador iria embolsar.
Então, não é que Jesus aprove o que fez o espertalhão. Mas ele reconhece que quem está mais envolvido com o dinheiro – os “filhos deste século”, como ele diz – é gente mais esperta e não deixa de servir de exemplo aos “filhos da luz”. A esperteza do mal deve ter uma contrapartida tão eficiente como ela por parte da esperteza do bem. Por isso, o cristão tem que ser esperto. Ficar encastelado nos cenáculos da vida nem sempre é a melhor maneira de se encarar o mal. Cristãos ensimesmados não têm uma visão mais ampla do pecado, que reduzem a algumas manifestações de inveja, soberba, ira, luxúria.
O pecado tem outros nomes. Certa vez, num programa de televisão, o apresentador Silvio Santos perguntou à comediante Dercy Gonçalves se ela não se envergonhava dos palavrões que dizia – ela, que era uma mulher já idosa, e que deveria servir de exemplo às gerações mais novas. Bem... Se Jesus elogiou a esperteza do administrador infiel, acho que eu também posso elogiar a resposta da Dercy, independente da sua figura polêmica. Dercy esbugalhou aqueles olhos nonagenários, chispando fogo em direção ao apresentador. Eu não vou dizer aqui o palavrão que ela disse, explicando que aquilo não era pornográfico e que palavrão era “fome”, “violência”, “injustiça”, “analfabetismo”, “corrupção”. Estava errada a atriz?
Na parábola de Lucas a que nos referimos, Jesus chama de “riquezas injustas” o pouco ou muito que acumulamos ou a riqueza que amealhamos nem sempre da maneira mais justa. Aqui, vale lembrar que a valoração da nossa riqueza é muito relativa. Para um cristão que vive com três ou quatro salários mínimos, um carro popular – quitado, às vezes, a duras penas em um carnê que mais parece uma bíblia... – é um grande tesouro. Não é só rico que é rico. O pobre também tem suas riquezas. E vamos e venhamos: os “pecados” da Dercy não são exclusividade dos magnatas da indústria, ou dos grandes “fazendeiros” do agro-negócio, ou dos escroques das bolsas de valores, ou ainda, dos maus políticos que se apropriam da riqueza que é para ser nossa. Se a fome, a violência, a injustiça, o analfabetismo e a corrupção nascem do egoísmo desses ricos, encontram, no entanto, um terreno fértil entre nós que vivemos lamentando a nossa condição de oprimidos, diferentes do administrador infiel que se apressou em negociar com os devedores, ou igual a Dercy, que foi rápida na resposta, ou seja, foi esperta em declinar uma relação de pecados que normalmente nos passa despercebida. Por que não (?) ... sermos espertos como eles?

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