sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ANUNCIAR A BOA NOVA AOS POBRES DE HOJE

Henrique Faria

Alguns ouvintes podem estar cansados de política em nossos editoriais. No entanto, o nosso jornalismo trabalha com o momento, as notícias do dia e da semana, os fatos que estão fazendo presente a nossa história. Vivemos este momento político importante com a proximidade das próximas eleições. E é sobre ele que temos que conversar, evidentemente que sem fugir do nosso foco principal que é a evangelização. Exatamente por isso os nossos ouvintes vão ouvir hoje um pouco do evangelho.

Lucas nos conta, em seu evangelho, a presença do Mestre em uma sinagoga de Nazaré, iniciando a sua caminhada, quando ele lê um trecho do livro de Isaías, que ele mesmo escolheu: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor”.

E por que, então, não considerar o aspecto político deste trecho? Note que Jesus se apresenta como quem vem ao encontro dos pobres, dos doentes, dos encarcerados. São aspectos da nossa sociedade que movem a missão de Jesus até hoje. Aliás, diga-se de passagem, uma missão que ele pessoalmente encerrou com a sua morte e a sua ascensão ao céu, mas que nos deixou por continuá-la, em seu nome. Nós nos esquecemos, no nosso dia-a-dia, na correria da vida, na preocupação com as nossas coisas, que não estamos aqui sozinhos nem vivendo para nós mesmos. Nós vivemos em função de toda a humanidade e de toda a criação em última instância, mas estamos aqui, particularmente, em função das pessoas que nos cercam. Elas precisam de nós, quando somente nós pensamos que precisamos dos outros seja para as mais diversas finalidades: para nos darmos bem na vida, para fazermos bons negócios e tirar vantagens sobre elas, para subirmos de posição, para sentirmos prazer, para inflar o nosso ego. Nesses momentos sentimos que não estamos sozinhos no mundo, ou seja, quando a nossa vida está voltada para nós mesmos. Até mesmo na partilha de um momento de tristeza ou depressão, buscamos sempre o ombro de outro que, sem que a gente perceba, às vezes está mais carente ainda do que nós. Quando temos que ouvir não temos a mesma disposição que temos quando falamos. Exigimos que o outro chore conosco mas nem sempre nós rimos com ele. Ele só está no centro da nossa vida quando o centro somos nós.

Por isso é interessante acolher a missão que Jesus nos deixou, ainda que a gente nem acredite de verdade na pessoa dele ou viva como se não acreditasse. A vocação à partilha, à generosidade, à disponibilidade, à fraternidade universal não é um carisma especificamente do cristão: é do homem, que não foi criado sozinho e que desde os albores da vida no planeta ganhou uma outra pessoa para o completar. Assim, cabe a cada um de nós também “anunciar a boa nova aos pobres”, procurando promover cada pessoa que esteja ao nosso lado, independente do seu nível ou categoria de pobreza. Não há somente os pobres econômicos. Há também os pobres de cultura, os de educação, os de carinho, os de oportunidade, os de atenção, os de amigos, os de conselhos, os pobres de alma pequena. E é a eles que temos que anunciar que, afinal, chegou a sua redenção. É aos corações amargurados que estamos aqui para levar a alegria, a cura dos seus traumas e ressentimento. E também não há encarcerados apenas pela justiça dos homens. A eles também nos cabe um importante desempenho da nossa missão. Mas há também os encarcerados pelo ódio, pela inveja, pela frustração, pelo apego doentio ao dinheiro ou ao prazer, pelas drogas, os ensimesmados pelo egoísmo a quem nos cabe também uma parcela da ação de Deus na sua libertação. Há ainda os cegos a quem podemos operar o milagre da restauração, fazendo enxergar um mundo novo aqueles cegos que não querem enxergar, que insistem em não ver que o mundo está pegando fogo ao seu lado e somente se mexerão para se debaterem sob as chamas quando já não houver mais remédio. O escuro a que se submetem os deficientes visuais – os cegos mesmo, fisicamente – não os limitam como limita a escuridão da ignorância e da teimosia dos cegos que não querem enxergar. Nossa missão, dando continuidade ao discurso da inauguração da vida pública de Jesus, é justamente sair de nós mesmos para curar e libertar, fazer enxergar quem está perto de nós.

E, voltando à nossa pergunta inicial, por que não considerar o aspecto político desta nossa missão? Há momentos especiais em que a nossa missão ganha força e nos alavanca para a sua realização. Estamos vivendo exatamente um desses momentos. É hora de trocar idéias e impressões sobre a nossa realidade política que continua nos fazendo pobres, encarcerados e cegos porque não queremos enxergar – e os que enxergam parece que não querem assumir a missão de ajudar na cura, libertação e devolução da visão a quem precisa de uma visibilidade maior da situação. Todos os lugares são os púlpitos para a nossa pregação e momentos como esse, com a proximidade das eleições, não devem ser desperdiçados.

Vamos ajudar a banir a pobreza política, nós que sabemos que a “vida em plenitude” não é uma figura poética do evangelho de Jesus, mas um anseio de sermos ricos e felizes, transmitindo ao nosso próximo esses nossos sonhos.

Defenda a vida! Não vote em candidatos comprometidos com a morte e a quem interessa que continuemos sempre pobres, cegos e encarcerados, porque é da nossa pobreza, da nossa cegueira e da nosso prisão que eles se alimentam como parasitas da nossa omissão.

(Editorial produzido para a Radio Cultura de Taubaté em 17.09.2010)

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