domingo, 5 de setembro de 2010

Filhos da Pátria! Já podeis ver a mãe gentil contente?

O nosso país tem um hinário cívico muito bonito. O Hino Nacional, o Hino à Bandeira, o Hino da Independência são expressões poéticas belíssimas que estão em desuso em nossas escolas preocupadas em ensinar tecnologia, informática, apertar botões e clicar mouses para onde o materialismo, o mecanicismo e o virtualismo se dispõem a levar as cabeças de nossas crianças, adolescentes e jovens. Hoje não se ensina a compor um soneto, uma trova, uma crônica, um conto, ou a lidar com a filosofia ou a poesia que torna a pessoa mais sensível, mais rica espiritualmente, mais humana e menos máquina.

Diante disto, somos obrigados a admitir que as lindíssimas manifestações de civismo que encerram nossos hinos pararam no tempo do romantismo cívico e não conseguem seduzir mais ninguém, especialmente nossas crianças e adolescentes. A nossa pátria mãe gentil virou uma velha quadrada que não há poesia que nos seduza para ela. Por quê?

Porque a brava gente brasileira – isso, sim, o Brasil ainda é um país de gente brava – continua a ver a liberdade como um fenômeno inatingível como a linha do horizonte onde ela raiou. Ainda que brava, a gente brasileira é mais prática e não se vê dando a vida pela pátria livre. Hoje o Brasil não pode zombar dos grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil. Mãos mais poderosas não são as nossas. São as mesmas que manipulam três quartos do planeta, constituídos de nações subjugadas pelo capitalismo inclemente, pelo neoliberalismo insensível, ou pelo comunismo desumano. Não se pode falar em perfídia no quadro atual de dominação. As nações dominadoras, que tolhem a nossa liberdade, não se escondem em ardis. São claras como era a luz do dia em tempos que ainda não havia poluição. Continuam ímpias falanges, como canta o nosso Hino da Independência, mas não apresentam face hostil como diz o poeta. Nossos peitos, nossos braços já não são muralhas, mas ferramentas de opressão de que os nossos dominadores usam para nos manter cativos. Entretanto, ainda podemos dizer que o Brasil resplandece entre as nações – nem com tanto garbo juvenil, como diz Evaristo da Veiga em nosso Hino da Independência – mas com um certo orgulho e com os olhos levados ao céu, podemos agradecer a Deus pelo privilégio de estarmos renascendo a cada dia em nossa independência, a despeito do grito de morte perpetrado por aqueles que não amam verdadeiramente este país, mas que o controlam com segundas e terceiras intenções, totalmente equivocados da sua missão de libertar a cada dia os pobres filhos desta mãe gentil dos grilhões que hoje têm outros nomes, como a fome, o analfabetismo, a violência urbana e rural, a injustiça, a corrupção.

Por isso, cantar a liberdade no dia de hoje é um gesto meramente poético como o fizeram Evaristo da Veiga e dom Pedro I ao comporem o nosso Hino da Independência. Evidente que não queremos tingir de cinza os sentimentos verde-amarelos que embalam os nossos corações neste Dia da Independência. Hoje é um dia de alegria, sim! Mas é também um dia de renovar a coragem daqueles que deram a sua vida pela nossa pátria, não só nos conflitos que antecederam o Grito do Ipiranga, como o fizeram o bravo Tiradentes e tantos outros, mas honrar também o sangue de tantos mártires dos nossos dias, que tombaram nos porões das ditaduras que amargamos em boa parte do tempo em que o Brasil se julga um país democrático. A nossa alegria cívica não nos deve alienar, tapando o sol com a peneira, nos impedindo de ver que ainda tombam anônimas centenas de milhares de crianças desnutridas, vítimas de doenças bisonhas, que em nações mais evoluídas já não fazem mais parte das estatísticas, mas da história. Ou de ignorar o sangue que derramam os nossos jovens que não têm acesso ao ensino superior por absoluta inviabilidade financeira; ou daqueles que, diante da falta de perspectiva e de horizonte são presas fáceis da droga e do crime. A nossa alegria cívica não deve esconder o nosso temor partilhado com tantas mães que não conseguem dormir esperando voltar um filho da rua que não volta, ou do pai que sai de casa, de manhã, em busca de emprego para voltar à tardezinha desconsolado com a carteira de trabalho no bolso, ainda rescendendo a última demissão. Não podemos ser felizes se a nossa mãe gentil ainda expõe suas filhas imberbes e adolescentes na prostituição infantil, mácula vergonhosa de que o Grito do Ipiranga ainda não conseguiu nos libertar.

Há muitas outras mazelas históricas por chorar. E há também as que vêm crescendo num ritmo sorrateiro de desconstrução da identidade cristã do nosso povo, como o encaminhamento que se dá a um Plano de estalinização do nosso país, apelidado de Plano Nacional de Direitos Humanos – o PNDH 3 – que rompe, oficialmente, com a nossa tradição católica de um país nascido à sombra da Cruz. Como sermos plenamente felizes?

Ninguém deseja mais que qualquer filho dessa mãe gentil venha tombar em um poça de sangue para que seus netos possam festejar a liberdade. Mas é hora de honrar aqueles que tombaram e fazer valer o grito de Dom Pedro: Independência! Independência! Independência! Liberdade! Abre suas asas sobre nós!

(Editorial para a Rádio Cultura Taubaté AM790, em 7.9.2010)

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