sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O SOL DA PRIMAVERA QUE NASCEU PRA TODOS

Henrique Faria

Já estamos na primavera. E o nosso amigo ouvinte já pode sentir as manhãs mais iluminadas, um sol mais festivo e gente mais feliz. O ar seco de final de inverno, que tanto castiga principalmente aqueles que brigam com uma rinite teimosa ou com uma alergia que herdou do berço, vai ganhando relativa umidade e aos poucos nos fazendo esquecer que o tempo de andar encorujado está passando. A chuva vai voltar, pegando os incautos que deixam o trabalho, ali pelas 5 ou 6 da tarde, anunciando um novo tempo, com pancadas gostosas que não têm a maldade das pesadas chuvas de verão. Os caminhantes sazonais retiram seus paramentos coloridos do armário, prometendo não parar mais as suas caminhadas com passadas decisivas pela praça, tentando queimar as gordurinhas que ganharam no pouco tempo em que a comida mais pesada era uma tentação dos dias mais frios do inverno.

É bem verdade que o frio nunca é tão frio assim, mas parece que o frio do inverno está mais na alma do que no ar. Roupas pesadas que nos tornam mais elegantes não tornam mais alegres o nosso dia. Por isso Deus fez a primavera. E as flores enchem nossas praças, nossas ruas e o que sobrou dos nossos jardins, a maioria agora forrado pela frieza das cerâmicas, cada vez mais resistentes para suportar algumas centenas de quilos do nosso carro. Que pena! A primavera já não pode entrar mais em nossos jardins! A começar por aqueles portões enormes e fechados que nos protegem daqueles que não têm primavera em suas vidas...

E como os nossos jardins, pavimentados pela argamassa dura e rústica dos lares mais humildes, pela pedra preta ou envelhecida de ardósias e São Tomé que ostentam as casas um pouquinho mais arrumadinhas, ou as cerâmicas vitrificadas ou porcelanizadas dos casarões mais bem aquinhoados, são como algumas almas que não deixam a primavera entrar e florir a sua vida, e nem abrem suas janelas de manhãzinha para receber esse sol tão gostoso que anuncia vida nova.

Há muita gente que insiste em permanecer no inverno. Nem sempre porque quer, mas porque falta-lhe alguém que lhe abra os portões e quebre o cimento duro que lhe encobre a terra onde possa florescer a primavera. Há gente que não consegue se levantar do escuro e do frio do inverno da depressão e da tristeza, do desencanto e do desânimo, da falta de perspectiva e da letargia a que se entregam porque o sol bonito que iluminou o nosso dia hoje não consegue uma fresta sequer para entrar naquela alma.

O sol nasceu pra todos. Tão lapidar este ditado... E tão banalizado porque geralmente quando o enunciamos nos voltamos para nós mesmos para dizer que nós também temos direito às oportunidades. Nós. Nós. Nós, o centro e a referência. Mas... E os outros? Não seria melhor dizermos: o sol nasceu também para os outros? E se a primavera não consegue florescer no jardim do meu vizinho, como eu posso dizer que o sol nasceu para ele também?

Querido amigo, querida amiga da Cultura! É tempo de primavera! Tempo de ser luz não para brilhar, mas para iluminar. O nosso brilho nem sempre ilumina. Às vezes ele ofusca e, o pior, ofusca a nós mesmos quando nos olhamos no espelho pela tentação do narciso que nos faz o centro da nossa admiração e arrogância, esquecendo que, por detrás do espelho, existe um mundo que se alterna em quatro estações, enquanto seguramos a primavera só pra nós. É preciso olhar esse mundo pela transparência e não pelo espelho. E nós vamos constatar que, seja no verão, seja no outono, no inverno ou na primavera, o sol não nasceu só para nós.

No inverno da vida há muitos corações esperando a primavera que não chega se nós não quebrarmos o espelho para poder enxergar a realidade. Vamos, neste começo de primavera, nos encher de sol e transbordar de luz, como que ressurgir do sepulcro de nós mesmos, inaugurando um novo tempo de alegria para quem ainda está no frio. Há muitas almas a serem aquecidas e muito lares a serem ajardinados.

Feliz primavera pra você, que, com certeza, só vai ser feliz se o sol realmente nascer pra todos!

(Editorial produzido para a Rádio Cultura de Taubaté em 24.09.2010)

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