domingo, 5 de setembro de 2010

O perigo da mesmice da nossa "realidade política"

Por Henrique Faria

Vamos iniciar a nossa reflexão com uma frase entre aspas. Abre aspas: “Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão" Fecha aspas.
Vamos deixar de hipocrisia. Frases como essa já se ouviram da boca de gente muito importante também dentro da Igreja Católica, em homilias ou palestras. O que choca na frase do presidente Lula não é a referência a Jesus e a Judas para uma negociação. É o atestado da traição perpetrada contra o povo brasileiro.Ele assina embaixo uma declaração de perfídia.

A Igreja Católica, em suas manifestações oficiais, insiste em não tomar partido nas próximas eleições. Faz parte da cultura católica a opção por errar por excesso de prudência em vez de acertar sob o risco de um engano irremediável. Mas nos bastidores do presbitério, ou, na sacristia, como possam querer alguns, vozes se levantam como que arriscando uma descompostura profética por entenderem ser necessário alertar os cidadãos sob o perigo de uma propaganda nazista que martela uma mentira até que ela se transforme em verdade. Os marqueteiros políticos ganham para isso. E é disso que vivem as propagandas eleitorais, que fazem de alguns corruptos históricos os mais inocentes cidadãos. É disso também que vivem candidatos à reeleição ou governantes que querem fazer o seu sucessor.

Quando você pensa que o presidente já fez tudo de bom, um governo irretocável que lhe granjeou a simpatia de quase 80% dos eleitores que dizem seu governo ter sido ótimo ou bom, vem a candidata à sucessão com algumas cartas na mão, que convencem o cidadão de que o seu governo vai ser ainda melhor. Nós já vimos esse filme muitas vezes. Há, ainda, candidato à Câmara Federal que, comprovadamente, roubou e desviou o produto de seu roubo a paraísos fiscais fora do Brasil – se é paraíso fiscal só pode mesmo ser fora do Brasil – e apresenta uma carinha tão ingênua, mas tão ingênua que nos faz quase acreditar que ele pode ser o único deputado federal correto da próxima legislatura. E o pior: ele vai ser eleito. Há outro, ainda, que... (pasme, querido ouvinte!) tem um histórico de falcatruas que se iniciou vendendo os trilhos do bonde de uma grande cidade do interior paulista, com a receita indo parar em seu próprio bolso, e foi se especializando em fraudes e roubalheiras, culminando na sua vida pública com a quebra do Banespa – que precisou ser vendido ao Santander para evitar o pior – e a falência do próprio Estado de São Paulo, que ele governou, passando a “batata quente” para o seu sucessor – igualmente corrupto, eleito com o seu apoio e a máquina estadual – que acabou por dar o tiro de misericórdia no mais próspero Estado da nação. Infelizmente, corremos o risco de vê-lo sentado na cadeira do Senado se o pagodeiro de Itaquera não passar mais sebo nas canelas e ganhar, nem que seja por uma cabeça, com vêm apontando as pesquisas eleitorais. Infelizmente, há bons políticos que morrem cedo. Ou de morte física mesmo, ou de morte política, pois não conseguem sobreviver chafurdados na lama do Poder. Assim, quem pegou o Estado destroçado já não faz parte do mundo dos mortais.

A Igreja realmente não pode indicar este ou aquele candidato. Mas pode mostrar ao eleitor o histórico de certos governos, a trajetória de certos partidos, como o PT, por exemplo, que traiu a ideologia pura dos seus fundadores e daqueles que sofreram na carne e pagaram com a vida o seu grito de independência e liberdade, provocando a ira dos generais nos anos de chumbo. O que alimentava o sonho petista era a instauração de um governo ético decidido ao implementar reformas estruturais. O que foi que nós vimos nesses oito anos de governo petista? Corrupção como nunca se vira antes, e algumas poucas reformas “meia boca”, que constituíram apenas o foguetório que saúda uma nova eleição do partido. Instalado no Poder, o PT não quer sair mais. E é por isso que costura alianças com adversários históricos, alimenta com fartura o estômago do leão, coloca lenha na fogueira dos impostos, elevando a níveis insuportáveis o termômetro fiscal que mantém o Brasil no topo dos países que mais taxam os seus cidadãos; faz o jogo do sistema financeiro, impondo uma política econômica exatamente como a do seu antecessor, que privilegiou o capital e promoveu o esganamento da classe média, acenando para os miseráveis uma esmola que os desestimula ao trabalho produtivo. O Partido dos Trabalhadores desistiu de transformar a realidade política que tanto pregou, para “operar a realidade política do jeito que ela é”, conforme palavras do presidente do partido em Minas Gerais.

E tem o pior: o PT negociou a aprovação do Plano Nacional dos Direitos Humanos – PNHD-3 – que o presidente diz ter assinado sem ler, que é o catecismo por onde vai rezar o próximo governo e que constitui, segundo palavras do jornalista Hermes Rodrigues Nery, “um projeto de sovietização do estado brasileiro”. Aliás, uma receita que já traz o bolo azedo, com gosto de anteontem, porque o estalinismo não deu certo em lugar nenhum, apesar de ainda ser o sonho de alguns caudilhos de republiquetas latinoamericanas. No bojo desse Plano está a desconstrução da identidade cristã do povo brasileiro em favor de uma nação que eles chamam de “leiga”, mas que, no fundo, deverá ser uma pátria sem Deus.

É preciso que o eleitor saiba dessas e de muitas outras mazelas que corrompem a saúde da nação, infelizmente com uma tendência em sua maioria eleitora de avalizar o projeto imoral do próximo governo. É a Igreja que tem postura moral para fazer este alerta, ainda que se intimide pelas suas feridas tão cruelmente exploradas por aqueles que se dizem agnósticos ou ateus, ou pelos favores pontuais de que aqui ou ali se serve nas benesses do Poder. E mais: é a Igreja e não os partidos políticos que detém a maioria do eleitorado brasileiro. Nós católicos teríamos condições que colocarmos no Poder quem nós quiséssemos se não fosse uma legião de católicos “de meia tigela” que ainda não se conscientizaram da própria cidadania. Assim, nós católicos seremos os responsáveis pelo que possa vir, mantendo a mesmice da nossa “realidade política”. Pense nisso!

(Editorial para a Rádio Cultura de Taubaté AM790, em 10.9.2010)

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