terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Lições do Primeiro Turno

Henrique Faria

As lições do primeiro turno do pleito deste ano nos levam a várias considerações. Infelizmente, entre elas, às que nos remetem à pouca seriedade com que significativa parte dos eleitores clicaram o seu voto na urna eletrônica, contrariando o nosso sonho de mudança e de segurança política para os próximos quatro anos. Ou você acha mesmo que um milhão e trezentas e cinqüenta mil pessoas foram sérias ao eleger como o deputado federal mais votado do Brasil a figura de um palhaço, refletindo-se exatamente no espelho das urnas a sua cara de analfabetos políticos, burros e imbecis decantados por Brecht em seu mais famoso texto? É evidente que aqui não nos referimos à pessoa que existe por baixo daquela fantasia ridícula do palhaço Tiririca. O cearense Francisco Everardo de Oliveira e Silva deve ser uma pessoa pura, boa, inocente – um “inocente útil”, diga-se de passagem. Mas os seus eleitores não votaram na sua pessoa; elegeram, sim, a sua fantasia, o que, aliás, coloca até um ponto de interrogação na legitimidade do sufrágio do seu nome para ocupar a mais alta câmara da República Federativa do Brasil.

O eleitor paulista – só para dizer dos votos mais próximos de nós – deu quase quinhentos mil votos para uma figura que nem candidato era, corrupto, cínico, cara-de-pau, cuja candidatura há havia sigo impugnada pelas suas travessuras milionárias que o excluiu do rol dos portadores de ficha limpa! Só aí temos quase dois milhões de votos perdidos, numa escolha que poderia ter beneficiado gente mais séria, mais correta. Somem-se a eles outros tantos sufragados em favor de personagens ridículos, cujos nomes nem compensa declinar. Isso sem contar que os quinhentos e tantos mil votos que os católicos deram a um candidato a deputado federal, carinha bonita e fala mansa, cheio de ser carismático, intelectualzinho da nova geração metrossexual, foram para o lixo no dia seguinte às eleições, quando ele se alinhou à corrente abortista, contrariando os conselhos dos bispos brasileiros, especialmente do bispo da sua própria diocese, que em documento amplamente divulgado nas igrejas do país recomendam “encarecidamente a todos os cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras, em consonância com o art. 5º da Constituição Federal, que defende a inviolabilidade da vida humana e, conforme o Pacto de S. José da Costa Rica, desde a concepção independentemente de suas convicções ideológicas ou religiosas, dêem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto.”
Traição do eleitor e traição do candidato. Do eleitor “burro e imbecil” – nas palavras de Brecht – e do candidato espertinho que, todos nós sabemos, tem sonhos mais altos, e que entende que se não se prostituir não chega lá.

No entanto, não foi somente o viés anti-cidadania que ajudou na costura do pensamento democrático no pleito em seu primeiro turno. Por pior que possa parecer, a propaganda eleitoral oficial tomou rumos diferentes da de outras campanhas eleitorais, nos parecendo mais amadurecida, deixando de lado factóides sensacionalistas como o foi, por exemplo, o escândalo que detonou a candidatura Lula em 1989 favorecendo Fernando Collor de Melo. Hoje, os escândalos são mais “civilizados” – e dizemos isso entre aspas – e não conseguem refletir com tanto peso na preferência dos eleitores, pelo menos como apontam as pesquisas de opinião. E este é o lado bom das reflexões deixadas pelo primeiro turno.

O crescimento do voto em favor de Marina Silva, que foi determinante para levar Dilma e Serra ao segundo turno, mostra um eleitorado mais centrado no equilíbrio da propaganda, não porque a candidata tenha sido melhor ou pior que os outros oito candidatos, mas porque o tom que se deu à apologia da sua candidatura teve o condão de parecer mais sincero, mais respeitoso, de ver no eleitor uma pessoa inteligente. Não queremos dizer aqui que o eleitor mais inteligente votou em Marina necessariamente. Absolutamente! Mas que a propaganda da candidata o entendeu como um alvo inteligente.

Seria muita pretensão de qualquer analista político determinar o grau de inteligência do eleitor pelo número de votos dos candidatos. Por outro lado, não achamos que a inteligência seja fator determinante na escolha de um representante em qualquer esfera dos dois poderes que ficam por conta da vontade do cidadão comum. Inteligente todo mundo é. O “burro” de que fala Brecht – aqui também colocamos o adjetivo entre aspas – e o analfabeto político que diz odiar política são também pessoas inteligentes, mas que se recusam a exercitar a sua inteligência em favor da própria família, da comunidade, da sua cidade, da sua nação.

Há outros elementos de muito mais preponderância que determinam a escolha dos nossos representantes políticos. Primeiro de todos, o interesse pelo pleito, que se revela na empolgação pelo voto, pelo direito de votar, de exercer cidadania. Quem deixa de votar para aproveitar um final de semana prolongado na praia ou no mato, não deixa de ser inteligente por isso, mas é omisso no exercício do seu dever de cidadão. Quem troca o voto por favores ou por promessas de favorecimento pessoal, não pensa como cidadão, mas nos seus próprios interesses que não têm a abrangência do interesse nacional. Quem vota sem conhecer a ficha do candidato, o seu passado e no que ele contribuiu para o bem-estar da nação, está votando no escuro. Quem insiste em manter no poder pessoas declaradamente corruptas e sem sensibilidade, como aconteceu nas eleições do primeiro turno quando verdadeiros bandidos foram guindados novamente ao cargo com que roubaram o nosso dinheiro, é eleitor que gosta de ser roubado.

Você que é inteligente, não deixe de votar com consciência. É da sua consciência cívica que podemos dar continuidade ao Brasil que aí está, ao país que pode melhorar, ao aprendizado levando em contas as nossas mazelas para pensar na conclusão de um projeto democrático por que tanto suspiramos na reconquista do nosso direito de votar com as Diretas-já.

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