terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Natal: o milagre

Henrique Faria

De hoje para amanhã nasce um dia mágico, encantador, poético no mais tradicional jargão da sociedade de consumo, da mídia que se assanha pelos resultados do seu faturamento, do mercado que contabiliza lucros estratosféricos de uma matemática em que 30% de um produto que custa 100 são 300. Daqui a poucos minutos o comércio se abre aos retardatários, aos desprevenidos e esquecidos, aos agradecidos de última hora que precisam retribuir um presentinho ganho no dia anterior. Os calçadões ficam intransitáveis, a massa consumista se espremendo entre sacolas, sacolinhas e sacolões; artistas de rua tentam seu 13º nas mais fantásticas representações de estátuas vivas; os marreteiros, driblando a fiscalização, oferecem seus produtos de qualidade duvidosa, e no camelódromo camelôs disputam a carteira do passante, quase honestamente, diga-se de passagem, com as últimas novidades da China atravessadas no Paraguai. No mercadão, donas de casa disputam pêssegos, uvas, abacaxis, melancias e melões, frutas bonitas que compõem a ceia de Natal. Brinquedos, roupas – muitas roupas! – lembrancinhas, panetones, frutas do inverno europeu para o nosso calor de 30 graus. Nos shoppings centers... Ah... nos shoppings centers, loucura total! Agora chamados de catedrais do consumo, os shoppings fazem o frisson da classe média. E tome cartão de crédito! Os que ainda têm crédito aproveitam as bancadas frigoríficas dos supermercados para escolher suas aves natalinas, devidamente congeladas há pelo menos seis meses, quando não desde o Natal do ano passado. Ali o espaço é mais democrático: os menos afortunados compram seus franguinhos, os mais ou menos o seu frangão (uma espécie de miniatura de peru que surgiu de uns anos para cá), os melhorzinhos, o seu peru, devidamente espetado com um termômetro que para não passar do ponto de assadura. E os ricos? Bem... os ricos não freqüentam supermercados e têm quem o faça por eles, mas apenas para o trivial, porque a ceia dos ricos varia muito: de um cruzeiro pelo nordeste, a festas fechadas de fina freqüência, eles não sabem o que é disputar a tapa uma fila de caixa ou um tour pelos calçadões.

Este é o encanto, a magia e a poesia do natal com “n” minúsculo. Porque, no Natal de verdade, não existe magia nem encanto: existe o milagre! E é o milagre que nos leva à Missa do Galo (que agora dorme com as galinhas) e já não se realiza mais à meia-noite. Nem por isso é menos Natal.

Mas ainda resta a poesia.

O nascimento de Jesus foi o momento poético supremo da história da humanidade. O milagre poético. A poesia que atingiu a excelência não alcançada pelo mais inspirado dos homens poetas. Deus é o poeta supremo que fez da vida a sua obra-prima, e de tão bonita que Ele achou, Ele mesmo quis fazer-se gente, nascer humilde e escondido, pobre, de uma mulher comum, uma menina aparentemente como as outras, como convém a todo enredo de poesia. A pobreza é poética. E por que a riqueza não rende tanta inspiração? É... Já reparou? A riqueza rende conforto, bem-estar, consumo, prazer, mas não rende poesia.

A poesia do Natal está no sentimento de fraternidade, de solidariedade, de partilha e de amor. Está na esperança de dias melhores. Na fé de que Deus está conosco na figura do Emanuel nascido em Belém. A pobreza fala mais perto ao coração. E é assim que vemos nesta época tanta gente – a maioria pobre – se preocupando com os mais pobres ainda, levando-lhes um pouco de alegria e da poesia do Natal.

A liturgia poética da Missa de Natal nos convida muito mais do que chorar ao cantar Noite Feliz, a fazer sorrir muita gente que não tem noites nem dias felizes. A levar a comunhão verdadeira àqueles com quem a sociedade não quer comungar. O milagre de Belém, que é a nossa comunhão de Natal, precisa acontecer em nossas famílias, em nossas comunidades, em nossas periferias, favelas e roças, fazendo nascer Jesus a todo dia. Não querendo transformar nossos pobres em ricos – afinal, foi Jesus mesmo quem disse que “pobres sempre tereis” – mas fazê-los sentir poesia na pobreza, minimizar-lhes a tristeza que se acentua no Natal, proporcionar-lhes alegria e esperança, não só no contato direto com eles, mas na nossa postura de cidadãos que precisam trabalhar com responsabilidade na transformação da sua situação de excluídos para a de cidadãos de primeira classe que têm direito às mesmas oportunidades de escolha, à mesma justiça que trata todos iguais, à mesma paz que lhes tranqüilize as famílias.

O milagre do Natal acontece todos os dias. Mas nós ficamos estatelados com a magia e o encantamento que a um simples toque de varinha nos faz voltar à realidade. É uma felicidade efêmera. O milagre, não! O milagre é duradouro.
Mas Jesus não faz milagres nem poesia sozinho. É preciso o nosso concurso. Nós precisamos ser os versos do seu texto, a inspiração do seu contexto, e pegarmos na mão de quem precisa, ajudando-o a escrever a sua história, inspirada na história do menino de Belém. Nós somos os instrumentos do milagre. E para cada pessoa que passar pela nossa vida carregando uma dor, uma tristeza, um sufoco, um desalento, precisamos escrever, com Jesus, uma poesia que retrate o milagre da sua transformação, de uma nova vida, um novo Natal que perdure para sempre.

Feliz Natal, queridos ouvintes! Que o Natal deixe de ser magia, mas não deixe de ser poesia. E que deixe de ser encanto para ser milagre!

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