terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Dia do Professor

Henrique Faria

Hoje é um dia muito especial. Celebramos com muita alegria o Dia do Professor. Poucas homenagens, é verdade... Afinal, as escolas fazem seu feriado – neste ano um pouco mais prolongado – e a sociedade pouco se lembra desta data, a não ser pelo noticiário da TV, quando se faz alguma menção. Os alunos não se esquecem: graças aos seus mestres poderão safar-se da chatice das aulas de matemática ou de português, das fórmulas de física ou das histórias monótonas das ciências sociais, ainda que doa um pouquinho afastar-se da paquerinha, que podem custar uma eternidade esses três dias de distanciamento. É verdade que as redes sociais da Internet – para aqueles que têm seu próprio computador – diminuem a distância entre os coraçõezinhos quase apaixonados, que, com certeza, não encontrarão um tempinho para enviar um scrap ou e-email para o professor.

O mestre sabe muito bem disso. E, alguns deles tiram seu Dia para suas tarefas de casa – as mulheres para uma faxina mais acurada, os homens para uns remendos no telhado – sem o prazer de saborear a data com o reconhecimento, pelo menos nesse dia, da sua vocação missionária de burilar as mentes e moldar os corações na construção de uma pessoa mais rica intelectual e espiritualmente para servir a sociedade como cidadãos de brio e de amor ao seu país.

É possível que a professora, enquanto esfrega com mais força os azulejos na limpeza pesada, esteja se lembrando daquele aluno mal educado que a enfrenta invariavelmente quando ela precisa ser mais dura e lhe lembrar do seu lugar, jogando-lhe na cara frases como essa: “O que você ganha por mês, o meu pai ganha por semana!” – coisa que, com certeza, ele ouviu em sua casa. Aquilo lhe dá um aperto no coração e se angustia ainda mais quando se lembra que ao queixar-se da atitude do aluno, nem sempre tem a solidariedade da diretoria, mais preocupada com a receita que o mal educado produz do que com a dignidade da sua mestra. É possível também que o professor, no seu Dia festivo, enquanto faz seus consertos em casa para a mulher – é só no feriado que tem tempo para essas coisas... – meta o martelo no dedão e deixe escapar um palavrão, exatamente no momento em que se lembrava do deboche de uma aluna que lhe respondera à questão “Você já ouviu falar em Che Guevara?”, cinicamente: “Sei, não! Não é do meu tempo!”.
Interessante notar a diferença entre os professores de hoje e os de pelo menos cinqüenta anos atrás. Hoje eles são muito mais próximos dos alunos, diminuíram a distância cerimoniosa que havia entre si, mas são muito menos respeitados. As crianças – note bem: não é regra geral – têm os seus mestres como profissionais da educação, responsáveis pela educação que nem sempre recebem em casa, por diferentes motivos, especialmente em função da desagregação da família que, se não for pelo seu aspecto moral – em que a criança nem sempre conhece o próprio pai, ou se o conhece, consegue vê-lo apenas uma vez por mês – o é pelo seu aspecto físico, quando sua mãe fez a opção de “realizar-se profissionalmente” ou mesmo de ajudar o marido na renda da família, mantendo pouco contato com os filhos que quer ver sempre dormindo para lhe dar um pouco de sossego. Há ainda os alunos que percebem a burocracia que torna seus mestres seus empregados, obrigados a engolir seus sapos porque dependem do seu humor e paciência para garantir o emprego.

Os mestres de antigamente eram mais respeitados. Mas, cá entre nós, a cultura do magistério era também outra. No tempo em que não havia cantina nos colégios, nem a merenda providencial, a professora tinha que ter sensibilidade para perceber o aluno que não tinha o quê levar de lanche para dividir com ele a sua própria matula, geralmente mais saborosa e atraente que a das criançada.

Pode parecer que os mestres de antigamente fossem mais amorosos, afinal, eram uma extensão da família do aluno, e o aluno uma extensão da sua. As escolas públicas eram poucas e as particulares inacessíveis para a grande maioria da população. Os professores tinham, então, uma aura de sacerdotes; o magistério era um sacerdócio. Mas não porque os professores de ontem fossem diferentes dos professores de hoje. Se formos analisar friamente, a escolha pelo magistério hoje não é menos vocacional do que a de ontem, uma vez que os nossos jovens têm uma gama muito maior de opções profissionais por se decidirem e, se se decidem pela carreira de professor, na grande maioria das vezes, é porque querem fazer de sua profissão uma verdadeira missão. Antigamente, especialmente as mulheres, tinham muito menos escolhas, mas, por sua vez, tinham também muito menos necessidade de trabalhar fora e, se escolhiam ser professoras, é porque queriam se doar pela construção de uma cidadania sagrada no coração das crianças.

Todos os mestres – os de hoje e os de ontem, incluindo aqui homens e mulheres que se dedicam como verdadeiros missionários – são os objetos da nossa homenagem. Não importam os mal agradecidos – pais e alunos – que não os reconhecem como tal. Nos corações de crianças, adolescentes, jovens e adultos – esses já desfrutando dos ensinamentos dos seus mestres – lateja a sensibilidade de um carinho muito especial por aqueles que às vezes substituem as próprias famílias de seus alunos para lhes darem um sentido na vida, um norte e direção, que nem sempre recebem em casa.

Não importa que eles sejam remunerados e que sua atividade constitua uma profissão. Isso não lhes rouba a aura de sacerdotes e missionários na construção de um país decente, onde ainda haja pessoas, como são os seus alunos e ex-alunos, que dignifiquem a nossa nação.

Parabéns, mestres! Que este seu dia seja um dia de ação de graças a Deus por tê-los colocados em nossos caminhos e de reconhecimento pelo papel importante que vocês exerceram e exercem na formação dos cidadãos de verdade!

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