terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O meu jeito de ver o Coração de Jesus

Henrique Faria

A Igreja dedica, todos os meses, a primeira sexta-feira ao Sagrado Coração de Jesus. Trata-se de uma devoção antiga, que remonta aos primeiros séculos da Igreja, reacendida na Idade Média, tornada festa pública em 1670 por São João Eudes, e definitivamente popularizada por Santa Margarida Maria Alacoque a partir de 1673, quando foi dado o grande impulso na formação de uma equipe com o objetivo de tornar mais conhecida: o Apostolado da Oração. A partir daí surgiram várias congregações religiosas que tinham por carisma principal o culto ao Sagrado Coração de Jesus. O que realmente representa esta devoção?

Há uma tendência moderna que paira sobre a Igreja, em atribuir a uma devoção qualquer a pecha de devocionalismo vazio na contramão de uma fé comprometida e engajada, como se diz na linguagem de hoje para definir a fé não simplesmente como um ato de acreditar em Deus e em suas verdades, mas como um compromisso de vida em viver intensamente as verdades de Deus no nosso dia a dia e não em meros arrebatamentos, que nem sempre têm origem no nosso coração.

No entanto, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção qualquer. É muito mais do que uma simples manifestação devocionalista. É o nosso contato com a humanidade de Deus que se revela bom, justo, solidário, misericordioso, compassivo na pessoa de seu filho Jesus. E entendamos Jesus aqui como um homem, uma pessoa histórica, que viveu concretamente, que teve tristezas, alegrias, coragem e medo, fome, sede, cansaço, que se sentiu decepcionado com seus amigos e que se sentiu feliz no meio deles – às vezes até dividindo com eles o prazer de um bom copo de vinho – que se sentiu traído, como nós nos sentimos em todos esses fenômenos que nos fazem seres humanos. Jesus foi gente como a gente. E é no seu coração que Deus – um ser transcendente que poderia se constituir em um mito inatingível e inexplicável, se por sua infinita bondade não se encarnasse e não descesse até nós no tempo e no espaço – nos comunica a sua atenção de pai para conosco. De pai mesmo, que quer o nosso crescimento saudável, o nosso progresso, a nossa segurança, o nosso bem-estar, o nosso bom relacionamento com nossos irmãos, a nossa mesa farta, o nosso sono tranqüilo, a realização dos nossos sonhos, o reconhecimento do nosso valor e a justiça dos nossos atos. O Coração de Jesus é o sacramento do amor de Deus para com as suas criaturas mais queridas.

Diante dessa realidade – vamos aplicar aqui a redundância: “realidade real” e não uma “realidade virtual” – não há porque nos enveredarmos por elucubrações teológicas para explicar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A presença do Coração de Jesus em nossa vida é palpável, visível, por isso “sacramento”. Não é um encantamento como em grande parte de nossas poesias e hinos atribuímos a sua presença no meio de nós. Ela é a concretização do amor de Deus na nossa vida – concretização mesmo, que não se limita ao desconhecimento do abstrato. O Coração de Jesus é especialmente o dom do amor divino. E é do dom do amor, com que Deus se humaniza em nós, que decorrem todos os outros dons com que nos divinizamos nele: a fraternidade, a justiça, a misericórdia, a partilha.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não se explica. Se vive. Se encarna. Por isso, pouco representa para Deus o hábito de comungarmos nove primeiras sextas feiras seguidas, ou de assistirmos à missa nas primeira sextas feiras do mês, ou de empunharmos o estandarte do Apostolado da Oração ou de fazermos de colar aquela fita vermelha e branca, se não conseguimos enxergar o Pai no Coração dilacerado de Jesus, que é também, às vezes, o nosso coração dilacerado, ou um coração cheio de amor que não deixamos transbordar como transbordou o sangue de Jesus. Ser devoto do Coração de Jesus é nos aproximarmos da divindade da mesma forma com que Deus, nele, se encarnou na nossa humanidade. Aproximarmos da divindade do Pai é, pelo menos, correspondermos ao seu projeto original que nos construiu à sua imagem e semelhança. É buscarmos no Coração de Jesus – a ponte entre o Deus, que achamos inatingível, e nós – os dons com que ele nos contempla, aproximado-nos da sua imagem e semelhança: o dom da santidade, que nos faz bons, corretos, generosos, caridosos, amorosos no aqui e agora, na nossa família, na nossa comunidade, no exercício da nossa cidadania, no estender a mão a quem está caído, no oferecer o pão a quem tem fome, a roupa aos mal vestidos, no esforço sobre-humano pela cura de quem está doente – sim, porque nós temos o poder de curar – na paciência com quem achamos inconveniente, na compaixão pelos que não conseguem se levantar, no dividir a alegria com quem faz sucesso, enfim, no nos colocarmos no lugar do outro como Deus se colocou no Coração de Jesus.

Esta nossa preocupação de nos fazermos entender sem as firulas teológicas que explicam os mistérios do Coração de Jesus sem que nos expliquem de fato, são uma forma de mostrar concretamente que esta devoção nos leva a algo mais do que encantador: à realidade concreta da presença viva de Deus Pai entre nós, solidário conosco na humanidade de Jesus. A partir desta realidade – não se trata de uma idéia, mas de uma realidade – entendemos que não é tão inatingível assim a realização do sonho de Deus em nos fazer semelhantes à sua imagem.

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