terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pavimentando a estrada para o Reino

Henrique Faria

A celebração da Festa de Cristo Rei no próximo domingo reveste-se de um significado muito especial não só para a Igreja, mas para todo o mundo. É interessante notar um pequeno detalhe que nos escapa quase sempre à reflexão quando somos chamados a nos lembrar do reinado de Jesus.

Primeiro, pela decepção dos judeus com o seu Messias, que estava ali naquela cruz, humilhado como qualquer bandido, a ponto de lhe colocarem uma inscrição no madeiro, “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Deboche! Sarcasmo! A cruz é que o “tal rei” merecia pela sua “sandice“ de se arvorar em rei. Para aquela gente que se divertia com a condenação daquele homem a quem, mesmo sabendo que não era um criminoso, era uma festa ver crucificado aquele louco que lhes frustrara as expectativas de uma libertação do jugo romano. Não existia o ódio popular naquele momento. Era “apenas” o deboche levado às últimas consequências.

Por um outro lado, havia dois outros crucificados ao lado de Jesus. Um, que não obstante a sua condição de extrema dor e humilhação, fazia coro com a multidão, desafiando a realeza de Jesus e o seu poder, instigando-o a se mostrar poderoso e se salvar a si mesmo e a eles dois. Outro, que creu, e apelou a Jesus para que dele se lembrasse quando estivesse no Paraíso. Não consta que Jesus tivesse dado alguma resposta ao primeiro. Mas ao segundo, prometeu para aquele dia mesmo a salvação.

Jesus já havia dito a Pilatos que o seu reino não é deste mundo. A sua condenação, entre outros motivos, não foi determinada pelas acusações que lhe eram atribuídas. O governador sabia que ele era inocente. No entanto, atendendo a apelos meramente políticos, querendo manter as boas relações entre o Império e seus súdito judeus, Pilatos acovardou-se. Não reconheceu juridicamente a inocência do acusado, embora a tenha defendido de fato, e, o pior: alinhou-se ao descrédito daquela gente que não aceitou o reinado de Jesus como um reinado que não é deste mundo.

Jesus falou à exaustão o que seria o reino de Deus, o reino dos céus. Passou toda a sua vida pública explicando isso ao povo, demonstrando seu poder ao conferir milagres, curando, ressuscitando, multiplicando pães e peixes, acalmando tempestades, andando sobre as águas, transformando água em vinho, enfim, realizando maravilhas concretas que por si só deveriam ter feito crer aquele povo duro, teimoso. Jesus não se contentou em ficar filosofando sobre as belezas e as delícias do reino dos céus. Ele deu provas concretas do seu poder para que aquele povo visse quem realmente ele era e que o que pregava tinha o lastro de verdade manifestado em suas obras.

Mas o povo não entendeu. E não entende até hoje. E até hoje debocha da sua loucura de querer que o homem siga na contramão do que caminha a humanidade, que busca na realeza do prazer, do poder opressor e egocêntrico, da cultura da concentração da riqueza em vez da multiplicação dos bens e das oportunidades, que instala aqui mesmo a terra da bem-aventurança, como se o reino da felicidade se extinguisse no seu último suspiro e num punhado de terra que lhe cobre a carcaça já inerte.

Ainda hoje, todos nós contribuímos para instalar na nossa própria cruz uma placa que satiriza o reinado de Jesus. Ao enfrentarmos a dor e o sofrimento, fazemos, às vezes, coro ao deboche popular, tentando negociar com Jesus, instigando-o a, se tiver poder de verdade, arrancar do nosso peito aquela dor, ou da nossa carne aquele sofrimento. E não fazemos como o bom ladrão que, sem vociferar contra a sua dor, acredita no reinado de Jesus e simplesmente lhe pede que se lembre dele quando estiver no Paraíso.

Está na hora de deixarmos de lado aquelas fantasias de ver um Jesus coroado, sentado sobre as nuvens, incensado por anjinhos louros e morenos, ladeado por outros que dedilham cítaras e tocam trompetes, para identificarmos em nosso dia a dia o reino de Jesus que, mesmo não sendo deste mundo, tem inicio aqui e aqui começa a ser construído. Os sinais do seu reino são muito claros e possíveis de ser identificados até mesmo entre os bons ladrões que nos rodeiam, gente que não obstante a loucura da multidão que debocha de Jesus a todo momento, faz a sua parte não só de crer num reino de felicidade, que não é deste mundo, mas de acreditar que é aqui e agora que temos de pavimentar essa estrada real com as bases da justiça, da igualdade, da partilha, da solidariedade, do amor e da paz.

Assim é possível reverter o deboche secular, que extrapolou os limites da Judéia, para inscrevermos na cruz de Jesus, que agora tomamos por nossa cruz, uma nova mensagem: Jesus Cristo, Rei do Universo!

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