terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Que Dilma abrace as ideias que inspiraram a Proclamação da República

Henrique Faria

A celebração da Proclamação da República do Brasil, que comemoramos na próxima segunda feira, reveste-se de significado especial neste ano. Passados 121 anos daquela tarde do dia 15 de novembro do final do século 19, em que pesem algumas especulações sobre os motivos que redundaram no golpe militar que pôs fim à monarquia, as ideias basilares em que assentam o nosso conceito de república continuam vivas.

Em primeiro lugar, a ideia de um território federativo, ou seja os estados não são independentes em última instância, devem ser regidos pelas mesmas leis e submetidos ao mesmo governante; em segundo lugar, a ideia de se levar em conta o bem comum e a prevalência da lei e da Constituição sobre os interesses individuais; e em terceiro lugar, a ideia de que o governo seja eleito pelo povo e tenha caráter transitório.

As eleições deste ano trazem à nossa reflexão alguns pontos fundamentais para que se avalie a nossa vocação republicana. Independente da figura da nova presidente eleita no último dia 31 de outubro, com a escolha de apenas pouco mais da metade do eleitorado brasileiro – ou seja, seu nome não foi um consenso nacional – nós temos aí uma nova governante que deverá dirigir os rumos do país a partir do próximo dia 1º de janeiro.

Este é um primeiro fato alvissareiro: foi exercida a democracia plena, quando ganhou a maioria técnica do povo brasileiro. Outro fato a ser levado em conta é a lisura do pleito: o Brasil se alinha entre as nações com o sistema eleitoral mais desenvolvido e mais seguro, até que se prove o contrário. A ratificação do resultado pela ordem e disciplina com que as forças adversárias receberam a eleição da nova presidente, sem as badernas e os conflitos urbanos, comuns nessas ocasiões em países tidos como bem mais evoluídos que o nosso, deve ser creditada também na coluna dos bons motivos que nos fazem acreditar no Brasil.

Mas, é voz corrente entre vencedores e vencidos que a república brasileira ganha um alento maior por ter elegido uma mulher para o seu primeiro mandatário.
Ainda que recaiam sobre Dilma Rousseff alguns senões sobre sua postura moral frente a algumas questões contundentes que atentam contra a vida, todos nós – os que votamos e os que não votamos nela – preferimos acreditar nas suas afirmações de campanha prometendo governar o Brasil dentro dos princípios da ética e da moralidade. Sobre sua pessoa recai também a fama de autoritária e intransigente. É possível que estas duas adjetivações possam ser canalizadas para uma administração ética, de poucos conchavos, poucos negócios, e os que tiverem que ser entabulados sejam dentro da lisura e da honestidade dos princípios que ela prometeu defender. Sem qualquer conotação discriminatória e preconceituosa, ouve-se com muita frequência o povo comum dizer que a mulher tem uma blindagem mais segura contra a desonestidade do que o homem. Sendo assim, vamos acreditar que, pelo menos em se tratando da nossa nova presidente, seja verdade essa premissa que, aliada à sua autoridade e intransigência os homens (e mulheres) corruptos, imorais e inescrupulosos,que circulam pelos corredores do Planalto, pensem duas vezes em tentar cooptar o novo governo à sua rede de prostituição política em detrimento dos interesses do povo brasileiro.

As ideias básicas que inspiraram a proclamação da república sejam também fonte de inspiração para os próximos quatro anos, fazendo de nossa república federativa uma grande família onde todos os estados tenham as mesmas oportunidades de progresso, sejam acolhidos pela mesma mãe e dela recebam o mesmo carinho e a mesma atenção; onde a Constituição federal seja respeitada, principalmente como uma Carta da qual defluem a soberania do nosso país, a cidadania de que são portadores todos os brasileiros, o respeito à dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político, e principalmente a prevalência da lei sobre os interesses individuais; e que o caráter transitório conferido ao governo pelo conceito republicano não seja afrontado pela máscara do continuísmo, legando à nova presidente as mazelas do governo que se encerra, mas tão somente as suas conquistas sociais e econômicas, porque, pela sua atuação no campo político, na política fiscal e previdenciária, na gestão de uma política sustentável para o meio ambiente e principalmente no que se refere à ética e à moral, o governo agonizante ainda ficou muito a dever ao povo brasileiro.

Que Deus abençoe a nova presidente, ainda que Ele não tenha sido lembrado nas 1.090 palavras do seu primeiro discurso oficial após a sua eleição, e que ele faça latentes no coração de Dilma Rousseff as primícias de um coração de mãe, que, quem sabe, por ser mulher tenha mais sensibilidade com o sofrimento do povo brasileiro, com a igualdade com que deve ser tratado – assim como filhos iguais pela mesma mãe – com a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, princípios básicos que inspiraram a proclamação da nossa república.

Deus salve a República!

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