terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Reflexões sobre a ocupação do Complexo do Alemão

Henrique Faria

A situação de guerra em que se encontram os morros cariocas nos levam a algumas considerações pontuais. Seria muita pretensão e talvez até mesmo temerário querer esgotar em um espaço de tempo tão limitado uma análise mais profunda levando em conta as condicionantes antropológicas, sócio-culturais, econômicas e políticas que determinam o caos em que se encontra a mais bonita cidade do Brasil. Portanto, nos limitamos a uma reflexão fechada em determinados pontos que achamos serem importantes.

O Rio de Janeiro já se encontra há mais de 30 anos covardemente entregue ao domínio do tráfico. Menos pela incapacidade e poder de enfrentamento, mais pela violência não só das armas dos traficantes, mas da corrupção política, policial e da própria comunidade que se alinha à bandidagem em troca de favores e proteção. Os papéis se inverteram nas favelas cariocas. As pessoas honestas são reféns e, não raro, vítimas inocentes de uma guerra que não provocaram. Os bandidos circulam livremente de armas em punho – armas pesadas e de grande poder de fogo – no comércio de drogas a céu aberto, na libidinagem dos bailes funks, nos arrastões em grandes avenidas, túneis e praias da cidade. O país assiste, inerte, pelos telejornais, as cenas que há menos de duas décadas só se viam em filmes de Hollywood. Não parecem ser verdade. Beiram o surrealismo fantástico. E aos poucos a opinião pública vai se aculturando com a violência carioca, deixando-se introjetar na cultura do crime, da violência e da morte, como se fossem parte da paisagem do Rio de Janeiro. Os tiroteios que se veem nas favelas do Rio tornaram-se cenas banais que já não chegam a sensibilizar a grande massa de povo. O telespectador assiste com a mesma indiferença a guerra no morro e os traillers dos filmes policiais – com explosões de carros voando pelos ares – que a TV anuncia para a noite do domingo. Bem... Pelo menos de uma semana passada para trás.

Hoje, configurada a guerra, em seu sentido amplo, filosófico e estratégico dos três lados – governo, traficantes e o lado podre da falsa repressão – com os bandidos do tráfico acuados no Complexo do Alemão e os bandidos da Banda Podre da política e da polícia ainda circulando impávidos pelo teatro da guerra, parece que reina relativa tranqüilidade entre as comunidades dos morros cariocas.
Coincidência ou não, a expectativa das Olimpíadas para 2012 e a final da Copa do Mundo para 2014, juntamente com a repercussão do filme Tropa de Elite 2, concorre, quer queiram ou não para uma ação decidida dos governos estadual e federal na ocupação do Complexo do Alemão, com um plano que deu resultado e demonstrou que é possível enfrentar a bandidagem. Foram necessárias milhares de mortes, famílias desfeitas, jovens desfigurados pelo vício, crianças aliciadas pelo tráfico, meninas empurradas para a prostituição, durante pelo menos trinta anos, para o governo tomar uma atitude concreta. Nem se trata de uma atitude corajosa, porque é dever do estado dar proteção aos cidadãos.

Guerra é guerra. Abominando os excessos, evidentemente, temos que admitir que a ocupação do território do tráfico não deve ser feita com gentilezas. Se preciso for, até a morte é permitida, cuja justificativa encontramos até mesmo no pensamento teológico de São Tomás de Aquino. E, aqui entre nós, somos tentados a pensar que só matando é que se resolve a situação. Ou, melhor ainda, a admitir que “sem sangue não há redenção”. Não acreditamos que com negociações se consiga estabelecer a paz na cidade do Rio de Janeiro. Já se sabe que uma trégua, sim, é possível comercializar com os traficantes, como o governo carioca conseguiu por ocasião dos Jogos Panamericanos. Mas é uma solução paliativa. Agora é enfrentar o tráfico de igual para igual, até na violência. Aliás, o poderio bélico do estado é infinitamente superior às armas desses bandidos, e o serviço de inteligência tanto das forças armadas quanto das polícias civil e militar dão de dez a zero nesses traficantes com neurônios de ameba, que só venceram até agora pela força, pela violência, pela corrupção ativa, pelo achaque, pela extorsão e, principalmente, pela covardia do estado que até então os deixara agir com ações pífias de combate.

No cerne de tudo isso está a falta de educação do povo carioca, não no sentido pejorativo que acostumamos empregar o termo, mas na carência de uma educação básica de qualidade nas escolas, que ensine ao alunos desde pequenininhos a gostarem de coisas mais nobres, que não se limitam ao samba malandro, ao funk depravado, à violência no esporte, à cultura do gersonismo, impregnada na cultura carioca em que todos querem levar vantagem; à cultura da malandragem segundo a qual desde criança já se tem um balanço no corpo, típico da nata da pilantragem. Escola de tempo integral. Ensino de música clássica. Prática de esportes competitivos. Ensino do xadrez. Ensino de boas maneiras. E... principalmente, o ensino de Deus.

Uma família que tem mais intimidade com Deus não se desintegra tão facilmente e não expõe seus filhos ao mundo-cão dos traficantes. Mas... Como falar isso para essa gente em meio a esses tiroteios, invasões de suas privacidades para se encontrar drogas e bandidos? Infelizmente essa guerra tem que continuar até que caia o último arsenal, o último depósito de drogas, o último traficante, seja na cadeia – de preferência – seja da maneira que for. Guerra é guerra. E, no caso do Rio de Janeiro, não nos parece ser possível a libertação sem que ela aconteça. Por enquanto, as forças armadas e as polícias do Rio estão fazendo uma guerra de inteligência, que é muito mais próxima da linguagem de Deus.

Mas a linguagem de Deus – mesmo – está numa ação social determinada por parte do governo. O estado, dando dignidade aos cidadãos está falando a língua de Deus. Praticando a justiça tributária, dividindo a renda com equidade e as oportunidades com igualdade, está falando a língua de Deus. Promovendo uma política sustentável de meio-ambiente, infraestrutura sanitária, atendimento digno nos postos de saúde e hospitais, colocando os jovens na universidade, dando condições de o cidadão descansar um pouco e se dar ao luxo de um lazer de vez em quando, está falando a língua de Deus. Um povo educado, saudável, seguro, de bem com a vida apesar da exigüidade dos seus recursos financeiros, é um povo feliz. Meio caminho andado para ser um povo de Deus. Quem sabe essa guerra acabe logo e Deus volte a fazer do Rio a Cidade Maravilhosa de sempre....

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