terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um Natal sem poesia

Henrique Faria

Eu gostaria de escrever alguma coisa sobre o Natal que não fosse poesia. Eu até me dou ao luxo de alguns surtos poéticos de vez em quando, mas a coisa anda tão brava, que fazer poesia hoje, mais do que antes, beira a alienação. Ainda que o céu esteja cheio de alienados, prefiro ficar por aqui ainda por uns bons tempos, cumprindo o meu papel de chato por querer botar tristeza onde tudo é felicidade, mas que Deus entende – espero – que é com a melhor das intenções.
Exalto tanto a pobreza que parece que eu gostaria que o mundo fosse pobre só de “raiva” por eu não ser rico. Mas, meu Deus do céu... Por que Jesus teria que nascer na penúria em que nasceu? Mas nem uma casa para Maria dá-lo à luz... Nem uma pensão... Um hotel? Por que o seu cobertorzinho tinha que ser o bafo dos animais, seu bercinho um forro de palhas? As suas primeiras visitas um bando de pés-rapados, pastores que cuidavam de ovelhas durante a noite para que ladrões não as levassem? Aí, você me diria: “Ora, foi para ser solidário com a humanidade.” Eu lhe volto a pergunta: “Mas ele não poderia ter sido solidário com a gente na riqueza? Todo mundo rico, já pensou? E Jesus poderia ter nascido numa maternidade digna das mulheres dos campos de Alphaville ou da colina do Morumbi.
E pensar que era para ser assim... O que Deus fez no homem de mais bonito – e mais temerário – foi a sua liberdade, com todas as variantes que poderiam levá-lo à vida ou à morte. Pois bem. Jesus foi vítima da liberdade do homem, que Deus não criou como se fosse um fantoche seu. E o homem, ainda no seu estado original, preferiu usar a liberdade para afrontar o inafrontável. Escolheu ser deus – assim mesmo, com “d” minúsculo – ainda que isso lhe custasse as benesses do paraíso. Daí para a frente, quis sempre levar vantagem em tudo e sobre todos, alguns especializando-se em ser ladrões, alguns em exterminadores do próprio semelhante que lhes constituíssem óbice de suas espertezas.
A pobreza de Jesus vem daí. E a pobreza de todas as crianças que não têm uma maternidade de primeiro mundo para nascer vem também, porque, pode crer, leitor, para cada criança que nasce na miséria, existe pelo menos um adulto ladrão que lhe roubou o direito de ser rico, como o homem que Deus criou em seu formato original. Então, não acho que a pobreza de Jesus tenha sido um exemplo. Exemplo foi a coragem de Maria que, como tantas mulheres dos nossos dias, aceitou a sua concepção e o nascimento do seu filho, independente das condições em que o poria no mundo. Foi o desvelo de José que, com certeza, bateu em dezenas de portas com a sua menina barrigudinha, já nas horas de ter o neném, sem que tivesse acolhida. E eu o imagino dizendo à Maria: “Se ajeita aqui, meu amor, que vai passar... Vai dar tudo certo! Coragem! Eu estou aqui com você! Você vai ver: vai ser um meninão lindo. Você vai ver!” A pobrezinha já não tinha sorriso pra sorrir, mas não deixou de esboçar um riso doce para o marido, como que dissesse: “Ainda bem que você está aqui comigo...”
A pobreza não é indecente. É até poética... Indecentes são suas origens. E alguém consegue fazer poesia com opressão, dominação, exploração, roubo, exterminação, falta de escrúpulos? Não acredito que Jesus tenha nascido pobre para nos mostrar isso. Mas mostrou.

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