terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vergonha de Taubaté

Henrique Faria

Pode até nos parecer uma reflexão inútil o que nos propomos a conversar nesta manhã de sexta feira. Mas não é. No fundo, podemos encontrar causas e consequências que determinam nossa realidade nem sempre tão agradável.
Vamos falar de evolução, mas no seu sentido mais rasteiro. Nada de elucubrações filosóficas para concluirmos que ainda vivemos tempos jurássicos em determinadas áreas da sociedade, especialmente nas mais próximas de nós.
Não se concebe – pelo menos na cabeça de pessoas que têm seus neurônios um pouquinho mais acionados – que diante de tanta informação, tanta visibilidade de uma sociedade moderna na nossa mídia, especialmente na TV que nos mostra um estilo de vida mais adequado ao terceiro milênio, que existam pessoas – infelizmente, uma grande maioria – que não evoluem, trazem ainda resquícios do homem das cavernas, ou, na melhor das hipóteses, o estigma do jeca no seu comportamento urbano. Em todas as áreas. Até na Igreja.
Não bastassem os trecheiros, andantes, vagabundos – no seu sentido original, “aquele que vaga por aí” – há pessoas bem escoladas,” descoladas”, gente que já tem uma certa bagagem de informações sobre comportamento e civilidade, que concorrem para fazer da nossa cidade, infelizmente, uma das que oferecem a mais negativa imagem, especialmente no item higiene urbana, não só considerando a nossa região, mas numa abrangência geográfica muito maior.
A situação da praça Dom Epaminondas, o marco-zero da cidade, seu centro histórico e referência religiosa, comercial e econômica, é emblemática. Por ela se retrata a índole do povo taubateano. Evidente, caro ouvinte, que estamos falando pela média, e, com certeza, você não participa desta estatística. Quando nos propomos a fazer uma crítica social nós buscamos o atacado, não o varejo. A grande massa. E, se citamos a nossa praça central em nossa crítica, é mais pela sua condição de centro nervoso da nossa cidade, do que pelo aspecto pontual.
Mas quem circula por aquele logradouro durante o dia, se for taubateano na razão e no sentimento, sente um pouquinho de vergonha. Se for de fora, faz inevitáveis comparações com a sua própria cidade, relegando a nossa a um plano inferior. Com exceção da catedral, que nos remete à cultura e à história, e de um prédio ou outro, com mais aspecto de modernidade, convenhamos, a nossa praça central só não é mais feia que o mercadão, na zona central da cidade. A ocupação por barraquinhas de lata, ao melhor estilo das antigas quermesses de roça; aquela muvuca toda em que camelôs alardeiam os mais recentes lançamentos da pirataria nacional; os pombos imundos, portadores de piolhos prejudiciais à saúde e os cães sarnentos abandonados por seus donos; aquela rodela onde se armou um circo pretensamente moderno mas que se tornou abrigo para desocupados e ocupados em observar alvos de um possível ataque à bolsa ou à carteira do passante distraído; aquelas lojas misturando seu som estridente ao som do serviço de alto falante que paga seus impostos para transmitir sua publicidade e suas músicas; isso para não falar de gente feia que não hesita em jogar papel, goma de mascar, copinho de sorvete, guardanapo de lanche, panfleto de propaganda e outras tranqueiras no chão, como se estivessem no quintal da casa deles. Pior ainda: aquelas que fazem das paredes da catedral o remanso para a satisfação de suas necessidades fisiológicas menores, em plena luz do dia, porque, à noite... Ah... À noite... A praça se torna motel, zona de prostituição para homens mulheres, jovens e velhos, qualquer que seja a sua opção sexual; ou latrina para aqueles que perambulam pela madrugada. Não raro, em grupos de jovens que saem das baladas, meninas levantam suas saias ou vestidos e ali mesmo, na frente dos seus amigos, fazem o seu reconfortante xixi. A praça é uma colcha de retalhos de várias poluições: poluição sonora, poluição visual, poluição higiênica e o pior: poluição social.
E, infelizmente, o aspecto visual da Dom Epaminondas leva os pedestres a se sentirem desmotivados a mantê-la mais bonita e mais limpa. Ah... “Fala sério”, como dizem os jovens... Nem na época de Natal ela fica um pouco mais bonita. A maquiagem natalina pela qual ela passa no começo de dezembro só não fica mais feia por falta de espaço. Deus do céu! Será que alguém acha bonita a decoração de Natal da nossa praça central? Decoração? São cordões de luzes esticados a esmo, sem estética, insuficientes para ocupar toda a área da praça , colocados por pessoas simples, sem acompanhamento de profissionais, de qualquer jeito, sem senso estético e sem um projeto, rudimentar que seja, de decoração. Os enfeites natalinos da praça Dom Epaminondas são o retrato da nossa cidade, do nosso povo e da nossa administração. Aqui tudo é pequeno. Miúdo. Chinfrim. E, se ninguém fala nada, vai continuar sempre assim.
Você, caro rádio-ouvinte, que não faz parte dessa estatística desalentadora, pode estar nos perguntando, como aventamos no começo de nosso editorial, porque empregamos tanto tempo para uma reflexão neste sentido. Para nós, que somos uma emissora católica, onde entra Deus nesta história?
Ora, Deus é a beleza por excelência. E o feio não revela a presença de Deus. Brinadeitas à parte, parece que Deus fica fechado na catedral e não tem coragem de botar os pés pra fora. Note bem: quando falamos em feio, falamos de postura, não de estética, porque, a beleza sob o aspecto estético é relativa: o que para alguns pode ser feito, para outros pode ser bonito. E a feiúra que vemos em nossa praça extrapola o estético e representa a nossa postura, a estatura da nossa cidadania.
O quê fazer? Sabemos que conscientizar esse povo de que é feio tudo isso a que nos referimos é uma luta para ser travada por décadas, porque teremos que evoluir a nossa cultura. A medida urgente é abarrotar o gabinete do prefeito, que sempre demonstra boa vontade em solucionar os problemas da cidade, de reclamações e sugestões para uma fiscalização por 24 horas, mais eficiente, e que a própria administração pública dê exemplo de que somos um povo decente e educado.

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