sábado, 22 de janeiro de 2011

NADA COMO RENOVAR NOSSA ESPERANÇA...

Henrique Faria

Eu que passei boa parte do ano passado em campanha pessoal contra a eleição da candidata indicada pelo presidente Lula, me rendo à realidade histórica que confirma a nossa vocação democrática e que colocou no Palácio do Planalto a primeira mulher para dirigir os destinos do Brasil.
O discurso inaugural da nova presidente acena para um estilo diferente de governar. De pouca prosa, diferente do presidente falastrão, Dilma Rousseff mostrou-se mais sincera do que foi seu antecessor. E eu acho que a gente pode acreditar no seu discurso, por dois motivos fundamentais: por ser uma mulher a oradora – aqui entre nós, mulher é mais transparente: quando presta e quando não presta a gente sabe – e por não ser política carreirista a nova presidente. Minha esperança é de que ela se preocupe mais com as questões aflitivas e de urgente implementação do que com os refletores da mídia, tão bem manipulados pelo presidente que lhe deixou o trono do Planalto.
Aliás, falando em “trono”, esta é uma outra preocupação: que ela não se contamine pelo monarquismo de Luiz Inácio I e seja mais democrática. Ou ainda que, diferente de Luiz Inácio, não governe como quem joga futebol. O monarca anterior era o dono da bola e do jogo de camisas e quem não jogasse no seu esquema não tinha direito ao “chopps” depois do jogo. Que ela não goste de “chopps” nem “daquela que matou o guarda” porque na sobriedade as idéias ficam mais claras. E a sobriedade foi o ponto alto do seu discurso.
Dilma mostrou-se elegante, cumprindo com singeleza a formalidade litúrgica do ato de sua posse. De uma elegância que não se traduziu no bonito tailleur que vestia, mas na postura educada, de urbanidade e civilidade, elementos que agregam ao seu perfil alguns pontos a mais. Muito mais do que uma salvadora da pátria saída da ralé inconformada, a nova presidente apresenta-se como uma servidora. O que, na verdade, ela é: uma servidora pública que exerce o cargo mais importante do Estado brasileiro.
E, sendo uma servidora pública, promete governar para todos os brasileiros, sem discriminação, sem compadrio, sem privilégios. Eu acredito nela, mesmo que – quem acompanha estas minhas ponderações sabe muito bem – não tenha dado meu voto a ela e que, por enquanto ainda não tenha me arrependido disso. É verdade, nós já ouvimos esse discurso da boca do Sarney, do Collor, e ultimamente do Luiz Inácio. Mas parece que da boca da dona Dilma ele saiu com mais sinceridade. E ela nem precisou chorar, como chorou o Luiz Inácio. Um embargozinho aqui e outro ali, mas não chorou... E ela, que ainda adolescente sofreu na alma e no corpo a crueldade da tortura da ditadura militar, poderia estar, como Luiz Inácio, tripudiando seus algozes esfregando-lhes na cara o seu diploma de presidente da república. Muito pelo contrário, afirma em sua fala inaugural não carregar nenhum ressentimento ou espécie de rancor. E estende a mão àqueles que pensam diferente, não lhes pedindo que abdiquem de suas convicções, dizendo que “é o embate civilizado entre idéias que move as grandes democracias”.
Como ela ainda não acredita que nunca antes neste país todos os 190 milhões de brasileiros já conseguem tomar todos os dias o café da manhã, almoçar e jantar, e que a minha casa é a minha vida, afirmou que “não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento das ruas, enquanto houver crianças pobres abandonadas à própria sorte, acreditando que “o congraçamento das famílias se dá no alimento, na paz e na alegria”, prometendo perseguir este sonho. É... porque ainda é um sonho, não obstante a falácia com que Luiz Inácio pinta os oito anos em que esteve no poder.
Desta vez ela se lembrou de Deus: “que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro”, foram palavras que antecederam a frase final do seu discurso.
Este é o meu sentimento neste início de ano. Nada como renovar nossas esperanças, ainda que não acreditemos em papai noel, em lobisomem, em fada madrinha ou que foi a cegonha que nos trouxe Luiz Inácio.
(Algumas das minhas considerações foram inspiradas pela leitura da matéria de capa da revista Veja nº 2198, ano 44, nº 1, de 5 de janeiro de 2011)

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