sábado, 12 de fevereiro de 2011

DILMA ROUSSEFF: TALVEZ FOSSE UMA MULHER O QUE FALTAVA

Henrique Faria

Perto de completar seus quarenta e cinco dias no poder, a presidente Dilma Rousseff vem surpreendendo aqueles que esperavam sua subserviência ao partido que a colocou no Planalto. Aliás, diga-se de passagem, a candidatura Dilma nasceu do lulacentrismo, de uma decisão pessoal do ex-presidente Luiz Inácio. O seu partido se retorceu em caretas e muxoxos com a sua indicação, acreditando, no entanto, que, por ser mulher, a candidata Dilma poderia ser facilmente manipulada se eleita presidente da república. Assim, foi aceita a sua candidatura, de certa forma serena, graças à cultura machista do seu partido e, principalmente, ao terror que toma conta dos seus camaradas quando o seu guru maior toma uma decisão. Nas hostes do partido sindicalista, sua palavra é lei. Inácio falou, ta falado.
No entanto, um pequeno detalhe escapa aos observadores, críticos ou não, da carreira política de Dilma Rousseff. Apesar da afinidade com que a sua geração de ativistas extremistas orbita pela atmosfera do seu partido, ela mesma, enquanto política, não nasceu lulista. Sua origem vem da gene brizolista, que quando emergente da abertura política concedida pelos militares, fazia oposição diferente da que faz o seu partido de hoje. Talvez isso justifique um perfil que, nos parece, vem surpreendendo e desencantando os seguidores do partido do ex-presidente, especialmente os que se encontram mais próximos do poder. Eles esperavam nela um Lula travestido, uma extensão feminina do maior líder sindical que o nosso país já produziu.
Pelos quarenta e cinco dias de Dilma no poder, há indícios de que eles quebraram a cara. Já dissemos aqui mesmo, neste espaço editorial, que não se assustem as brasileiras e os brasileiros se depois de algum tempo acomodada na cadeira do Planalto, a presidente der um murro na mesa e grite para os lambe-botas que a cortejam que “quem manda aqui sou eu!”.
É evidente que nas primeiras nomeações para seu ministério Dilma conservou alguns nomes, especialmente o da Fazenda, setor em que não quis arriscar uma mudança porque, afinal, se o povo brasileiro ainda não ficou rico, pelo menos a economia do país está administrável, nos parece que sob as rédeas de Mantega. Mas houve alguns gritos aqui e ali, como o que aconteceu com a nomeação para o ministério do Meio Ambiente em que a presidente preferiu manter uma mulher que não é filiada ao seu partido, fazendo ouvidos moucos à gritaria geral dos seus correligionários.
Outro aspecto que nos chama a atenção é a discrição com que Dilma Rousseff circula no poder. Diferente do seu antecessor falastrão, que não podia ver uma câmera ou um microfone, nos parece que ela vem preservando a sua imagem, para desgosto da mídia tão carente de fatos e factóides que possam temperar seu noticiário. Aliás, essa discrição faz parte da cultura feminina: todo mundo sabe que a mulher é muito mais prudente que o homem e que somente usa da sua exposição no momento certo e, quando usa, o faz de maneira eficaz.
O ex-presidente tinha aquele jeitão de festa quando encontrava seus correligionários no gabinete, nos corredores do palácio, ou nos churrascos bem regados da Granja do Torto. Dilma nos parece mais protocolar, pelo que nos descrevem observadores mais próximos do Planalto. Mais clássica, como quem cultiva a compostura e a postura que o cargo exige, não se reporta a temas como futebol, pescarias, histórias de botecos, mas, em suas manifestações menos protocolares, deixa transparecer seu gosto pelas artes, pela literatura, pela música. Isso não a faz mais sensível que o seu antecessor que, convenhamos, é um homem extremamente apaixonado pelo que faz, pela causa que milita, e sensível pelos que sofrem das mazelas provocadas por anos de opressão neoliberalista. Mas nos parece que a revela como uma governante mais centrada, mais administradora e menos política.
Queiram os nossos ouvintes aceitar essas nossas considerações não como críticas ao presidente que saiu, de quem temos também muita coisa boa para falar, mas como uma confissão de fé em nosso país, de esperança por dias melhores e principalmente por um governo ético que, convenhamos, o anterior não foi. Queiram também os nossos ouvintes, principalmente as nossas ouvintes, aceitar esta nossa reflexão como uma homenagem às mulheres, de quem a humanidade espera muito mais, especialmente pelo seu instinto maternal.
Não consideramos que o Brasil precise de uma sargentona, mas de uma mãe exigente e disciplinadora, que quando precisar dar umas palmadinhas que dê, mas que saiba ser terna na sua dureza, sensível na sua frieza, sem concessões na disciplina, mas maternal na sua postura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário