sábado, 12 de fevereiro de 2011

LIÇÕES DA TRAGÉDIA

Henrique Faria

Não se pode negar que a solidariedade prestada pelo povo brasileiro às vítimas da tragédia da região serrana do Rio de Janeiro é um fato digno dos mais vibrantes louvores, motivo de orgulho que enche o peito nacional. É a própria espécie na luta pela sobrevivência, numa demonstração inequívoca de que o homem não é uma ilha social, muito pelo contrário, é parte de uma espécie que luta para se manter na natureza.
A tragédia do Rio nos traz algumas indagações. Em meio a tantas histórias bonitas, tratadas com status de milagres da solidariedade humana ou como mistérios dos desígnios de Deus ou da sua presença no momento da catástrofe, a mídia deu tanta ênfase ao que se pode ver em detrimento ao que se pode pensar sobre a questão. Maravilha que a televisão possa mostrar também o lado bom do desastre... Mas, no aprendizado de como ajudar o irmão em um momento tão crucial, perguntamos se não seria o caso de perguntarmos também o que mais nos ensinam as lições dessa comoção que, com certeza, não se limitam somente à sobrevivência da espécie.
Não se podem também negar aplausos à atitude da nova presidente da república Dilma Rousseff em prometer a construção de seis mil casas aos desabrigados a toque de caixa. Mas também não se pode negar à ela a responsabilidade parcial na tragédia, pois, afinal, ela faz parte do poder há muitos anos, e batizada como “mãe do PAC” pelo presidente Lula deveria ter implementado ações já em todo o país que pelo menos minorassem os efeitos das chuvas de verão, com ações efetivas que permitissem aos moradores dos morros fluminenses moradias com mais segurança e dignidade. Todo mundo sabe que esse tal de PAC foi uma jogada eleitoreira e que não consegue deslanchar nem mesmo numa reles reforma como a da praça Santa Terezinha em Taubaté.
Ainda que a poeira tenha baixado, ou melhor, que as chuvas tenham abrandado na região serrana do Rio de Janeiro, não podemos nos esquecer tão rapidamente das lições da tragédia. E não é pela natureza da catástrofe que temos obrigação de minimizarmos as críticas à omissão e às ações públicas que poderiam tê-las evitado. Nessa altura dos acontecimentos, com a mídia se ocupando das histórias pontuais que nos enchem de emoção em meio a tanta desgraça mais do que questionando o papel do governo e do povo nas causas que determinaram tantas mortes, os governantes vão se encolhendo, quietinhos, para não chamar ainda mais a atenção para os seus desmandos.
Por outro lado, pode-se questionar também por que a população que demonstra tanto poder de mobilização não se mobiliza antes pelas causas que poderiam ter evitado essa e outras tragédias. Com essa solidariedade avassaladora demonstrada pelo povo brasileiro às vítimas fluminenses, pergunta-se: por que esse povo não se mobiliza para exigir ações concretas de implementação de projetos que busquem dar mais dignidade ao povo, não só na questão da moradia, mas da educação, da segurança, da saúde? Quem vê setenta ou oitenta mil pessoas reunidas num campo de futebol torcendo para o seu time do coração, ou todos os 190 milhões de brasileiros torcendo pela seleção canarinho, se parar para pensar, acaba se convencendo que nós temos a força de mobilização, mas somos escravos da omissão, do conforto de nossos sofás, do desencanto com o “não vai dar certo mesmo...”, e principalmente da despreocupação do pensar que sempre vai haver alguém fazendo por nós o que nós mesmos deveríamos fazer. Assim, a ação política popular se esvazia na solidariedade em momentos de tristezas e a nossa participação na esfera pública se confunde com a exposição midiática que nos mostra solidários, mas meramente lutadores pela sobrevivência da espécie.
Se destinássemos uma parcela pequena dessa grande força solidária mobilizadora de uma hora como essas, para a cobrança efetiva e constante de políticas públicas voltadas ao bem-estar da população, teríamos feito a nossa parte e minimizado a nossa culpa por tantas mortes, tanto sofrimento, tanta desgraça.
Se esperarmos da mídia, especialmente da televisão, alguma mobilização para mexer com o brio do povo no dia a dia da sua responsabilidade social, podemos esperar sentados, porque à ela só interessam imagens que deem audiência e... dinheiro.

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