sábado, 12 de fevereiro de 2011

RISCOS DE UMA IGREJA BUROCRÁTICA - II

Henrique Faria

A organização a que se sujeita a nossa Igreja, necessária e responsável, entre outros motivos, pela sua estabilidade nos seus dois milênios de existência, às vezes nos conduz à tentação de uma Igreja burocrática, onde clero e leigos exercem uma relação de dependência, esquecendo-se – ambos – que a Igreja é o Povo de Deus. A Igreja não é uma instituição cível, ainda que na sua organização tenha que se valer da personalidade jurídica por se encontrar manifestada entre os homens que, embora estejam a caminho do Reino, ainda não estão lá; e estão sujeitos à matéria com todas as suas implicações. No entanto, a pessoa jurídica de que se reveste a Igreja como uma sociedade multinacional não deve se sobrepor ao seu carisma pastoral e evangelizador.
O risco de uma Igreja burocrática, que em sua manifestação laica e clerical se ocupa excessivamente dos bens materiais, coloca em xeque as premissas genéticas de sua fundação pelo próprio Jesus Cristo, que não previu nenhuma instituição jurídica para dar seqüência à sua missão. Para ele, ser Igreja era, sim, estar sujeita a uma cabeça, fundamentada em uma pedra que, por mandato seu, estaria representada historicamente pelo seu discípulo Pedro. Fica evidente que, embora Jesus não tivesse previsto uma organização burocrática para a sua Igreja, fundou-a sob uma autoridade. Jesus sabia que, diante da humanidade dos seus seguidores, não haveria disciplina sem que houvesse autoridade, afinal, era uma Igreja constituída de homens e não de anjos. O que queremos dizer com isso é que, se entendemos que a burocracia põe em risco a pureza eclesial, entendemos também que a disciplina, seja sob um cetro ou um cajado, sustenta a eclesialidade. Mas achamos que os homens que se dispuseram a seguir de dois em dois para evangelizar deveriam largar tudo, seguir em frente com apenas uma túnica, sem ouro nem prata, preocupados apenas em fazer valer para a humanidade o evangelho de Jesus.
A burocracia da Igreja não se revela somente em seus negócios financeiros, quando a sociedade-Igreja é obrigada a administrar seus bens para que a eles seja dado um fim social, que concorram para o exercício constante de uma caridade pastoral. É dos primeiros momentos de uma Igreja instalada, ainda em Jerusalém, a divisão dos bens, quando todos colocavam o que tinham aos pés dos apóstolos para ser partilhado com os irmãos. Supõe-se que, mesmo naquele momento, havia necessidade de uma administração dos bens, mas para que eles não fossem simplesmente acumulados, e sim distribuídos com justiça. Então, o que se entende de administração, hoje, dos bens da Igreja, é que seu fim seja a justiça social.
Há muita preocupação por parte de leigos e clero em salvaguardar o patrimônio da Igreja, ampliando-o às vezes de maneira pecaminosa, quando o ter pelo ter não reflete a caridade pastoral. Essa manifestação materialista está presente desde as mais humildes capelinhas até as mais suntuosas catedrais. Ainda que o governo da Igreja tenha uma tendência centralizadora, os novos ares de uma Igreja surgida especialmente depois do Concílio Vaticano II permite a interação entre clero e leigos para decidirem qual a melhor maneira de utilizar os bens da Igreja e os seus frutos econômicos. A Igreja de hoje é mais democrática, mas que não se culpem os padres pela administração nem sempre coerente com os ditames evangélicos, já que as paróquias e até as pequenas comunidades têm seu conselhos econômicos particulares, leigos que se sentam com o pároco para “pensar” a realidade econômica das suas comunidades.
Entretanto, a despeito dessa democratização administrativa, nem sempre o dinheiro é bem empregado. Bem... Quando dizemos “bem empregado” queremos dizer “empregado de acordo com a justiça e a caridade pastoral”. É triste de se ver paróquias em que há gente passando aperto, em algumas (não é o caso da diocese de Taubaté, esperamos...) até passando fome, gente precisando de um exame às vezes nem tão sofisticado que só consegue depois de seis meses de formalizado o pedido nos balcões do SUS (tempo suficiente para a doença se agravar e até para o desenlace mais dolorido), gente precisando de uma consulta de urgência... gente que frequenta a missa todas as semanas e que nos veem falando em amor, solidariedade, partilha, e a paróquia, por decisão do conselho econômico paroquial, gastando os tubos com reformas nem sempre tão necessárias. Isso para não se dizer de outros gastos sem parcimônia com mobiliários, mesmo que litúrgicos, que ostentam luxo desnecessário, totalmente na contramão do que prega o evangelho.
Aí entra uma administração pautada pelo cristianismo, que dê uma finalidade social para os rendimentos da Igreja. Evidentemente que não estamos radicalizando. Muito da renda auferida pela Igreja em seus negócios, principalmente os imobiliários, nas coletas e no dízimo têm um destino cristão. Mas não custa nada repensarmos a destinação a que damos as nossas contribuições.
Todos nós somos responsáveis como Igreja Povo de Deus, leigos e clero, por iniciar a evangelização a que fomos enviados, pelo testemunho e pelo exemplo.

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