domingo, 20 de março de 2011

CF 2011: A Igreja com os pés na terra

Henrique Faria

Para aqueles que concentram seu olhar crítico à Igreja Católica taxando-a como fora da realidade ao propor a salvação aos homens e a conquista do Reino dos Céus, como se isso fosse uma fantasia milenar, a Campanha da Fraternidade deste vem mostrar que a Igreja Católica pode ter os olhos no céu, mas tem os pés na terra. E bem fincados.

Quando algumas pessoas – que não são poucas – ouvem a Igreja falar em fraternidade, imaginam a utopia do inatingível, como se fraternidade fosse um sonho e não uma realidade que permeia toda a vida do homem.

Teologias à parte, o ser humano vive em comunidade. E a sua tendência natural, pelo menos naqueles que não têm desvios morais que os tornam seres descolados da sua espécie, bem... a sua tendência natural é viver como irmãos. O homem é naturalmente bom, solidário, fraterno. E os desvios que os fazem lobos de si mesmos não fazem parte da sua natureza.

Dentro deste contexto é que a Igreja, como uma instituição fundada por Jesus Cristo dois mil anos atrás – por ser divina é a única instituição humana com tanto tempo de vida e de história – se coloca a serviço da pessoa humana promovendo fraternidade, corrigindo os desvios de rota na caminhada do homem para a eternidade. Quem pode negar – tenha ou não tenha religião – que o homem é um caminhante da eternidade?

A Igreja Católica, no Brasil, aproveitando um período de quarenta dias em que sugere ao povo uma parada para pensar, coloca no ar, nos templos e nos lares uma campanha que, nada mais nada menos, é uma campanha para se promover o bem-estar entre as pessoas, consolidar a sua capacidade de serem irmãos, no mínimo pela espécie a que pertencem.

Ela não situa o homem num espaço virtual a que poderíamos chamar de céu, longe da realidade do que efetivamente vivemos. Ela fala com o homem como um elemento da natureza, ser vivente num espaço físico que tem tudo a ver com a sua vida, o seu dia a dia, a sua saúde, a sua segurança, a sua cultura, as suas tradições, buscando sustentabilidade no seu desenvolvimento.

A Igreja entende que o desenvolvimento da espécie humana deve procurar satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, possibilitando que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais. Diga-se de passagem que este é o conceito de desenvolvimento sustentável abraçado pela cultura laica.

Pois bem. Para a Igreja, desenvolvimento sustentável é uma expressão de fraternidade. E neste ano, durante a Quaresma, tempo em que a Igreja convida as pessoas à conversão, ela dá várias pistas para reflexão, para promover a fraternidade e a vida no planeta. A Campanha da Fraternidade deste ano traz um tema cientificamente trabalhado – ou seja, vendo o homem como homem e não como anjo – propondo que todas as pessoas de boa vontade olhem para a natureza e percebam como as mãos humanas estão contribuindo para o fenômeno do aquecimento global – trata-se de um enfoque pontual – e as mudanças climáticas, com sérias ameaças para a vida em geral, e a vida humana em especial, sobretudo para os mais pobres e vulneráveis.

Impossível enquadrarmos em tão pouco espaço de tempo a riqueza da Campanha da Fraternidade deste ano. Mas vai aqui o nosso apelo a que você procure se inteirar da Campanha como um agente da sustentabilidade ambiental que pensa não somente em si mesmo, mas no seu irmão que está sofrendo as conseqüências do descaso humano com a natureza por meio de doenças, acidentes climáticos, fome.

A Campanha propõe ações concretas, algumas mais elaboradas, que devam ser implementadas pelo poder público, e algumas mais simples que cada um de nós pode implementar em gestos aparentemente prosaicos, como
- o descanso semanal, o conhecimento do próprio consumo ecológico – como e em que quantidade estamos contribuindo para o aquecimento global –
- a tomada de consciência da importância de nos livrarmos das famigeradas sacolas plásticas;
- o consumo local, a horta caseira ou comunitária, economizando dinheiro e combustível do transporte;
- a diminuição da temperatura de geladeiras, ar condicionados e estufas no inverno e aumentando no verão;
- o uso mais racional dos eletrodomésticos; o costume de desligar aparelhos – especialmente os dotados de stand by;
- o uso de painéis solares; preferir os carros a etanol ou gás;
- comer mais frutas e verduras, já que carnes de ovinos e bovinos são responsáveis por 18% das emissões mundiais de gás carbônico;
- uso de fraldas ecocompatíveis: a biodegradação das fraldas tradicionais leva 500 anos; economizando papel, já que com o consumo menor de papel,menor - o desmatamento; escovando os dentes com a torneira fechada;
- usando lâmpadas econômicas que consomem cinco vezes menos;
- banhos rápidos; enfim uma série de medidas domésticas que podem contribuir sensivelmente com a diminuição do aquecimento global, sem que precisemos cerrar fileiras entre os ecocontestadores que, vira e mexe, estão arrumando confusões por aí.

Existem também as ações concretas que a Igreja propõem para o poder público. Aí também entra você com a sua participação, sabendo escolher seus governantes comprometidos com a fraternidade vista sob o aspecto ambiental.

Participe da Campanha da Fraternidade, um momento rico para aprimorar seus conhecimentos e se conscientizar do dever de fazer acontecer uma vida melhor para o planeta e, em primeira instância para o seu irmão. E uma bela oportunidade para você entender definitivamente que a Igreja não fala somente de anjos e arcanjos.

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