terça-feira, 8 de março de 2011

É carnaval: licença para anarquizar

Henrique Faria

Não quero ser desmancha-prazeres, nem o chato que vê defeito em tudo, muito menos moralista. Mas aqui entre nós – muito aqui entre nós, não espalha não! – essa euforia toda que o brasileiro tem por carnaval me cheira primitivismo, ou na melhor das hipóteses, subdesenvolvimento. Não pela festa em si, que é maravilhosa, democrática. Nem mesmo pela nudez que – me perdoem os hipócritas que gostam, mas escondem – não deixa de ser uma expressão do belo, afinal, criado por Deus em sua versão do homem original. Deus criou o homem e a mulher nus e viu que era bom: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Então, que fique bem claro que as minhas considerações não têm nada de moralista.
O que me incomoda é esse frisson que muita gente tem, que come, bebe e dorme carnaval. Aliás, o mesmo se aplica ao fanatismo pelo futebol, que revela cada tremendo cavalão chorando desbragadamente pela derrota do seu time – os mesmos homens que têm vergonha de empunhar uma flor, levá-la para casa e dá-la à sua mulher. No carnaval também acontece isso. Naquele monótono falsobordon de se repetir a mesma cantilena por minutos intermináveis – Bateria... dez!, Harmonia...9! Evolução...9 e 75! e assim por diante... – quanto lutador de Jiu-Jitsu a gente vê se derretendo em lágrimas pelos 0,25 pontos de diferença entre a sua escola e a que levou o primeiro lugar, chorando feito uma criança, fazendo beicinho e enxugando as lágrimas com aquelas mãos enormes que se me acertarem... só o pó! O corpo de jurados trata aquilo com tanta seriedade que parece que não há coisa mais séria para ser julgada no Brasil.
Tudo bem se essa festa toda fosse apenas no tríduo que precede a quaresma. Mas a folia mesmo, a zoeira, o barulho se arrastam por três meses antes e uns dez dias depois que a tia Teresinha já recebeu as suas cinzas e está se recolhendo para uma quarentena de reflexão. Não que eu queira fazer essa ligação entre a farra e a religião. Longe de mim me arvorar em paladino do recolhimento quaresmal, ainda que tenha a minha opinião externada no artigo acima. Mas... Só por Deus e em nome do bom senso que aconselha a não enfrentar essa gente que promove o carnaval, que a gente tem que engolir que uma “escola de samba” (quá! quá! quá!) faça seus ensaios em uma quadra colada com o muro de quintal de uma residência onde mora uma velhinha doente, ou um senhor perturbado a quem o barulho constitui uma tortura medieval, ou o cidadão comum – que até gosta de carnaval – mas que levanta cedo e precisa dormir tranqüilo para agüentar o baque na caldeira da fábrica, o mau humor do chefe no escritório, ou a grossura do patrão narigudo no balcão da loja de tecidos. Tudo isso, às vezes, por uma apresentação patética na avenida, que inspira mais dó do que entusiasmo.
Tudo o que eu quero dizer é que o carnaval é a festa do desrespeito – para alguns que não são poucos – e que em nome de uma alegria artificial e passageira, há muita gente que se animaliza e perde a compostura.

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