terça-feira, 8 de março de 2011

Os culpados somos nós

Henrique Faria

Há poucas possibilidades de se reverterem certas situações a curto prazo. Nós lutamos contra uma cultura arraigada, de descaso para com o que possa acontecer a outras pessoas, a partir das nossas atitudes.
As últimas notícias sobre violência, ou sobre desastres de natureza climática, disseminação de doenças como a dengue, a AIDS e até a tuberculose que já estava praticamente banida, enfim, de fatos e situações que conturbam o sossego da nossa sociedade, têm sempre a sua raiz no comportamento das pessoas. Tudo porque temos uma tendência de nos fecharmos em nossos quadrados, pouco nos importando com o que possa estar acontecendo no quadrado do próximo. Aliás, os outros nem sempre são tão próximos assim.
Temos também uma tendência a atribuir ao poder público a responsabilidade pelo que de ruim acontece à sociedade, quando sabemos que, no fundo, não há governo que consiga lutar contra essa cultura autista e egocêntrica.
Procure andar pela cidade, com calma, com paciência, e principalmente com espírito observador, e você verá o homem lobo de si mesmo em plena atividade.A cada passo você verá uma atitude de desrespeito por parte de pedestres contra pedestres, ciclistas contra pedestres, motoqueiros contra pedestres e contra ciclistas, motoristas contra pedestres, contra ciclistas e contra motoqueiros, enfim, as pessoas se comendo num trânsito maluco que agrava a sua violência quando sob um calor de 40 graus.
Ou, então, procure “entrar” – aqui falamos entre aspas – na intimidade das famílias para ver onde nasce essa cultura, passada de pais para filhos, confortavelmente instalados sem seu sofás. Dificilmente você vai flagar um jovem lendo um livro bom, ou os adultos conversando com tranqüilidade assuntos que possam versar desde o comportamento familiar até as vicissitudes que deseducam nossos filhos. Na maioria dos lares estarão todos sentados com os olhos na TV e, se for depois das 10 da noite, milhões de famílias brasileiras estarão discutindo nos intervalos a performance dos atores que compõem a maior estupidez da televisão brasileira, esse tal de BBB.
Procure dar um passeio por avenidas – geralmente esburacadas – de nossos bairros e vai ver em suas margens, principalmente quando essas margens são terrenos baldios e abertos, e você verá sempre uma pessoa com seu carro despejando sacos de lixo nesses locais públicos, quando não nos córregos que riscam a cidade com a sua poluição causada não só pela falta de infraestrutura de saneamento básico, mas principalmente pela ação violenta dos próprios moradores que depois os culpam pelas enchentes.
Procure dar uma espiadinha por cima do muro de certas casas – mas tome cuidado! Você pode passar como suspeito de um possível assalto – para você ver quanto foco de doença você vai ver ali, além do criadouro do aedes aegypt, condições para a disseminação de outras doenças. Quantos imóveis desocupados, abandonados que se prestam a esse trabalho de contribuir para o desassossego da sociedade com a proliferação de doenças.
Você não vai conseguir, mas se for possível, procure entrar nas cozinhas de alguns dos nossos restaurantes – até dos mais bem conceituados... – , nos salões de algumas de nossas padarias, na intimidade de algumas de nossas lanchonetes, e você pode acabar anoréxico por não querer mais comer nada que venha dessas fontes, onde você encontra insetos dos mais asquerosos, sujeira, coliformes fecais, elementos que concorrem para a sua mesa, seu café da manhã, seu lanche, seu almoço ou jantar.
É o poder público que tem culpa por isso tudo? Talvez tenha parte, pela educação ineficiente, que por séculos não consegue formar uma cultura de gente civilizada. Mas os principais culpados somos nós. É verdade que o poder público não nos dá condições dignas de moradia, obrigando os menos favorecidos a pendurar suas casas em morros e favelas, aceitando o risco de uma hora para outra despencarem lá de cima como tem acontecido. Mas o homem desafia a natureza e a lei da física. O resultado é o que se vê. O mesmo se pode falar do desmatamento ciliar nas encostas dos rios para a ocupação desordenada de casas e barracos que poderão ser engolidos pela fúria das águas.
Com certeza também não é o poder público que tem culpa pelas poças que se espalham pelos nossos jardins e quintais, pelos terrenos baldios e pelas nossas lajes, que favorecem a criação do mosquitinho sem vergonha que está dominando a nossa sociedade.
E não é também do poder público a culpa pelas nossas crianças e adolescentes ficarem grudados na TV ou na internet vendo o que não presta para moldar o seu caráter à imagem e semelhança dos mais pérfido bandidos que nos assustam; ou pelas nossas jovens que não têm hora para chegar em casa e quando chegam, alteradas pela droga e pelo álcool, encontram os pais dormindo o sono dos anjos; ou pelos jovens que nem chegam.
Enquanto não criarmos uma cultura de responsabilidade social, o mal cresce e não temos condições de enfrentá-lo. Mas serão precisas atitudes radicais, tanto da parte do poder público com fiscalização e penalização sobre atitudes anti-sociais, quanto das famílias, que precisam se reinventar, criar um novo modelo de comportamento social de pais e filhos.

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