terça-feira, 8 de março de 2011

Picuinhas de província

Henrique Faria

Quando lemos alguns jornais ou acessamos alguns sites ou blogs com notícias e comentários políticos das cidades da nossa região – quase todas, talvez com exceção de São José dos Campos, que já se pode considerar uma cidade grande – nos deparamos com o provincianismo da classe política e, na esteira do comportamento dos homens que se dizem políticos, da mídia local também, mais explicitamente dos pequenos jornais – ou melhor, dos jornais menores, porque todos são pequenos – que se debatem em picuinhas para contentar meia dúzia de leitores.
Uma boa parte das pessoas que se servem da nossa mídia para comentar política local, seja jornal, rádio, televisão ou internet, se não são velhos jornalistas ressentidos, são jovens inoculados pelo vírus da mediocridade, tanto pelo despreparo, quanto pela falta de bagagem, ou até mesmo pelos vícios adquiridos daqueles que entra ano sai ano, entra eleição sai eleição, são sempre os mesmos recalcados, que perderam uma fase – entre aspas – “boa” em que tiravam algum proveito das suas opções políticas e das posições que assumiam de público.
Durante o período de poder de alguns caciques políticos, que tinham nas mãos os instrumentos de manipulação dos formadores de opinião postados na imprensa, alguns jornalistas fizeram a festa. Não com dinheiro, evidentemente, porque a grande maioria dos nossos políticos sempre foram pobres, com raríssimas exceções, mas com algum prestígio, emprego, cargos públicos e, principalmente, tapinhas nas costas. Havia ainda as famosas “bocas livres” que eram a alegria dos cupinchas, e que ensejaram a célebre frase de Robson Monteiro, de que “a imprensa daqui é movida a rango”. Coisas de província.
Essa cultura, no entanto, foi interrompida, mas não extirpada, de um modo pontual com a ascensão de um político fora dos padrões provincianos da época, e também pelo declínio da força política do mais poderoso cacique da região. Não entramos aqui no mérito das duas lideranças, duas excelentes pessoas, cada qual com seu estilo.
Entretanto, se a liderança que declinou do seu status de dono do pedaço político local não formou outras novas lideranças de expressão à sua imagem e semelhança, a liderança que ascendeu – estamos falando especificamente de Taubaté – também não o fez; pelo contrário, cultivou o descarte dos jovens políticos promissores que inclusive o ajudaram a ascender à mais alta plataforma da preferência política do povo da cidade.
Essas duas lideranças – as duas agora em estratégico recolhimento – ainda provocam acirradas opiniões entre os comentaristas políticos, execrando o primeiro quem defende o segundo e exorcizando o segundo quem se alinha com o primeiro. Ambas provocam histéricos ressentimentos entre os jornalistas – especialmente os mais velhos.
Se observarmos a história política das cidades da região, vamos ver os mesmos vícios em cada uma delas, e a mesma sonolência no desenvolvimento, algumas mais outras menos, mas quase todas andando a passos de tartaruga, amargando sempre uma escolha mal feita, tão logo cheguem os seis primeiros meses de gestão. Em todas elas um vício é comum. E é possível que a abstinência desse vício seja o nó de górdio para livrá-las do encanto a que foram submetidas, amargando, se não o atraso, a enorme dificuldade que têm em se desenvolver.
Neste sentido achamos que a mídia exerce um papel fundamental. Se os formadores de opinião não se envolvessem em política partidária ou mesmo em relacionamentos estreitos e interesseiros com as nossas melhores lideranças políticas, e se postassem como observadores isentos e honestos – aplaudindo o que se deve aplaudir mesmo que seja de um político desafeto, ou criticando o que se deve criticar mesmo que seja de um político amigo – pelo menos não alimentariam a fogueira das picuinhas e poderiam deixar os homens que fazem políticas mais à vontade para fazer política de verdade.
E política de verdade não se faz com ressentimentos, com vingança, com represálias. A verdadeira política se faz com diálogo, com composição, ainda que as partes envolvidas necessariamente não se morram de amores. Na província não acontece isso. Em política não se diz “pão pão, queijo queijo”. Em política se faz um sanduíche com ingredientes que aparentemente não combinam entre si. E se faz um sanduíche de pão e queijo, melhor. Também não se faz política colocando a vaidade pessoal acima do interesse comum, ou mesmo partidário. É outro vício que faz provinciana a política de uma cidade grande, que a torna medíocre e que impede o seu desenvolvimento.
Nós temos excelentes quadros políticos. Excelentes lideranças que, infelizmente estão adoecidas pelo mal do ressentimento e pelo mal da vaidade. Ninguém cede. E aí acontece o que acontece na maioria das cidades, onde duas ou três boas lideranças racham entre si a metade do filão e acabam deixando a outra metade inteira para um medíocre.
Os tempos são outros. Já não cabem mais essas picuinhas na mídia que ninguém leva a sério, mas que acabam alimentando o ressentimento ou a vaidade de quem poderia estar dando a mão àquele que lhe fizeram desafeto, já que o bom político não gosta de se desentender com ninguém.

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