terça-feira, 8 de março de 2011

Quarenta dias não são nada...

Henrique Faria

Não vou falar sobre a teologia quaresmal porque não é minha praia. Há gente muito mais habilitada que o pode fazer em meu lugar. O espaço está aberto. Mas não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa – o tempo civil mesmo, os quarenta dias antes de que você queira comprar aquele ovo de páscoa enorme para dar à namorada, ou ver chegar em casa as crianças com bigodes riscados e orelhas enormes de cartolina, depois de uma dia de aula, ou dar de cabeçada nos corredores dos supermercados abarrotados dos preciosos ovos pendurados. (Demorei tanto para escrever o aposto, que perdi o fôlego da frase que comecei...) – Bem... Como ia dizendo, não há como não referir ao tempo que antecede a Páscoa como o tempo do deserto.
Nós vivemos dias de intensa agitação, preocupações, contas para pagar, o salário que termina quando o mês apenas começou, estresse, irritação, trânsito caótico, falta de respeito nas mais prosaicas manifestações de sociabilidade, sem contar problemas com filho adolescente, com o pai prepotente, a mulher falante, o marido faltante, a casa que está para cair. É preciso dar uma parada! Rever a vida. Fazer ressuscitar aquela emoção de ter visto o filho nascer, o pai levá-lo de cavalinho, a mulher contando seu dia da faculdade no começo de namoro, a presença do marido no começo de casados, os sonhos de construir um lar enquanto se desenhavam os projetos de uma casa nova...
O deserto é um convite à purificação. À reflexão. À mudança. O deserto que você encontra no seu próprio coração, ou na razão que lhe aconselha dar essa parada, pode ser palmilhado por esses quarenta dias, onde você vai valorizar o oásis, aquela água fresca a lhe descer pela garganta. Jesus chama essa “água fresca” de “água viva”, mas eu não sei se você quer ouvir falar de Jesus agora. Você está com tanta pressa, que nem sei se você já pegou o rumo do deserto. Mas pegue! Vamos em frente!
Você precisa criar seu deserto e lhe dar um ambiente de despojamento, próprio para que você recrie seus valores, repagine sua vida, ressuscite dessa tumba em que se transformou seu coração e renasça um homem novo, uma mulher repaginada, uma outra pessoa que você esqueceu no salão ou na avenida quando foi deixando cair a fantasia, ou mesmo nesses rebanhões que o excitaram na procura do deserto.
Não que não lhe venham aturdir as tentações de poder, prepotência e de prazer durante a quarentena. Até Jesus passou por isso... (Ops! Falei em Jesus de novo e não sei se você está querendo ouvir.) Mas você há de reconhecer, comigo, de que ele só fala de coisa boa. E é de coisa boa que você está precisando ouvir. Quem sabe, não?, não seja a voz dele que você está precisando ouvir. No deserto é mais fácil... E quando você achar que ouviu a voz do coração, pode crer, é ele que está falando em você.
Experimente! Afinal, quarenta dias pra ressuscitar não é nada para quem levou duzentos e setenta pra nascer...

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