sábado, 9 de abril de 2011

JOSÉ ALENCAR, EXEMPLO DE VIDA, DE HOMEM, DE CIDADÃO

Henrique Faria

A morte do ex-vice presidente José Alencar deixa para o Brasil um legado de coragem, consciência da pequenez humana diante da doença e da morte, fé na providência e nos desígnios divinos, mas acima de tudo deixa uma herança de honestidade de quem viveu de acordo com a ética e a moral que determinam a passagem dos grandes homens por este mundo.

Além da vitoriosa carreira profissional e empresarial, conseguida não sem muitos sacrifícios, José Alencar é o exemplo emblemático de que política também se faz com seriedade, ao contrário do que a corrente majoritária do pensamento popular afirma ao conceituar política como atividade dos embrulhões, dos espertalhões, dos safados e corruptos, dos cara-de-paus.

Ele mostrou que não é bem assim. A sua aceitação para dividir com Luiz Inácio a chapa vencedora das eleições de 2002 surpreendeu a esquerda e a direita. Mas não surpreendeu os observadores mais atentos da política nacional que sabiam que se a esquerda não fizesse uma composição com pelo menos uma ala da direita o partido concorrente estava fadado a amargar a sua quarta derrota nas eleições presidenciais. A esquerda deu um golpe de mestre. E venceu as duas últimas eleições mantendo na vice-presidência um empresário bem sucedido, rico, representante da classe patronal, que foi o fiel da balança nas relações políticas dos dois mandatos de Luiz Inácio.

Seria leviano afirmar que sem José Alencar Luiz Inácio não venceria as eleições. Venceria sim. Pelo menos a primeira – cuja governabilidade foi colocada em dúvida pelos analistas e cientistas políticos, céticos de que no seu primeiro mandato Luiz Inácio chegasse aos seis meses de governo – era tida como garantida em decorrência das costuras feitas pelo seu partido que deixou a burrice de lado para formar alianças que foram determinantes na vitória.

Quanto à segunda eleição, tinha a vitória assegurada pelo desempenho de Luiz Inácio no primeiro mandato, surpreendendo os céticos com a desenvoltura com que circulou entre a direita e a esquerda, ainda que o seu governo tenha sido abalado por incontáveis escândalos promovidos por seus pares, pelos quais passou incólume.

José Alencar tem muito a ver com a governabilidade do governo Luiz Inácio. Foi um vice atuante, corajoso, de posições próprias, não correndo atrás segurando o rabo do cavalo do poder. Tinha personalidade para chegar à mídia e questionar certas posições do presidente ou dos seus auxiliares mais diretos como o presidente do Banco Central, da Petrobrás, do BDNS, sem que suas palavras gerassem crise ou ferissem susceptibilidades. Luiz Inácio, conhecido rolo compressor que passa por cima de quem não comunga com suas idéias –verdade seja dita – vergou-se em humildade diante do seu vice, que tinha como pai e mentor. Ele sabia que o sectarismo proletário não vingaria seu governo e por isso, tendo um interlocutor patronal da estirpe de José Alencar, conseguiu não só dar governabilidade a seus dois mandatos, mas também dar lições da verdadeira política que somente se faz com o diálogo, a prudência, a tolerância e que é possível fazê-la com honestidade.

Há quem se surpreenda com a permanência de José Alencar no seu primeiro mandato, diante das vergonhosas transações que emporcalharam o governo Luiz Inácio. Graças a Deus ele resistiu. Porque, não fosse assim, talvez a história brasileira dos últimos oito anos tivesse tomado rumos diferentes, retrocesso no estado de direito. Não que tenha sido ele quem segurou a onda. Mas com certeza foi a sua aura.

José Alencar acreditava na vida. E foi assim também nos seus mandatos. O homem que nós vimos pela televisão rindo da sua doença, sereno diante da morte previsível, era o mesmo homem que se sentava ao lado do presidente dando-lhe segurança e confiabilidade. Este é o segredo dos grandes políticos. Ou melhor: dos grandes homens que são políticos: a sensibilidade e a ternura do vovô, a experiência do pai que, com certeza, deve ter puxado muitas vezes a orelha do presidente; a grandeza de se sentir pequeno diante do mistério da vida, que ele tanto amava, mas que tinha consciência de não lhe pertencer, como não pertencia ao seu presidente o poder que o povo lhe delegara.

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