sábado, 9 de abril de 2011

SOMOS RESPONSÁVEIS PELOS NOSSOS DEMÔNIOS

Henrique Faria

Quando a humanidade pensa que já viu tudo o que mais poderia torná-la indigna da sua natureza, somos surpreendidos por fatos como o que aconteceu na escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, no último dia 7 de abril.

O homem se supera sempre. Na conquista do que parece impossível ou na realização do inverossímil, aquilo que não parece verdade, seja na semelhança que o coloca próximo da divindade, seja no que há de mais sórdido que o assemelha ao mais terrível dos demônios.

O fato como o da chacina do Realengo, que ceifou a vida de doze inocentes crianças, extrapolou os limites da natureza humana. Não se pode chamar o louco do Realengo nem mesmo de animal. Afinal, a violência perpetrada pelos seres irracionais são produtos do seu instinto de defesa ou de sobrevivência. O animal irracional cumpre um script traçado pelo Criador. Já o homem, que tem o seu destino a ser cumprido pela sua liberdade, foge, por determinação própria, daquilo a que se propõe a sua natureza, vista não somente pelo seu aspecto espiritual, mas também pelo físico e biológico, de ser imagem e semelhança daquele que o criou. O homem escolhe entre ser um Jesus Cristo, um Francisco de Assis, um Mahatma Ghandi, uma Madre Tereza de Calcutá, uma Irmã Dulce ou Zilda Arns, ou, na outra extremidade da grandeza, qualquer um daqueles – dos quais nem vale a pena citar os nomes – que transgrediram todos os códigos de conduta humanitária para se igualarem a Satanás.

Para quem não acredita em demônios, o crime da escola Tasso da Silveira talvez seja um forte argumento de que eles existam sim. Para quem acredita, é preciso acreditar além: ele mora ao nosso lado. E se veste das mais variadas indumentárias, é esperto na sua camuflagem e não é nada difícil que se esconda sob cândidas figuras de aparente ilibação. Pode aparentar-se de mulher bonita, criança inocente, às vezes até mesmo de batinas que julgamos serem vestes de anjos. E se você espera encontrar no demônio aquela figura horrorosa de um bicho estranho avermelhado, com chifres e asas de morcego, não vai encontrá-lo nunca, o que torna mais difícil a crença na sua existência e no seu poder. Deus é maior, nós cremos. E a vitória final será dele, nós cremos também. Mas, infelizmente, na guerra que se trava pela história da humanidade, o diabo vence muitas batalhas. Porque tem o nosso concurso. Porque o homem atende a apelos que fogem à sua natureza de seres bons que deveriam dar o tom da paz permanente, da justiça presente, do amor universal.

Falar em demônios numa hora dessas? Não deveríamos estar aqui lamentando a ignomínia do monstro carioca, nos solidarizando com as famílias atingidas, com as crianças sobreviventes traumatizadas pelo resto da vida? E estamos! Mas achamos que é preciso lembrar a humanidade de que o mal caminha par-e-passo com o bem, e que o homem, com o seu poder de escolha, pode interpretar uma história de anjos ou demônios, dependendo da intensidade com que se aceita ser racional ou do orgulho de estar acima do bem e do mal.

O que gostaríamos de lembrar aos nossos internautas é que, muitas vezes, criamos os nossos demônios a pão-de-ló, quando ignoramos os nossos filhos nas suas carências, no seu enclausuramento frente ao computador, na sua capacidade de desenvolver o instinto irracional da violência através dos jogos interativos com que os presenteamos, onde a guerra e a morte povoam suas cabecinhas de supostos heróis; quando nos ausentamos da sua vidinha escolar, sem mesmo dar-lhe o mínimo de atenção porque estamos cansados, trabalhamos o dia inteiro – pais e mães – e porque achamos que educação é função da escola, criando-os apenas como bichinhos de estimação; quando tratamos a nossa relação como problemas apenas nosso, nos esquecendo de que eles são peças do nosso casamento, que pais e filhos formam um corpo só e que uma separação conjugal tem que ser muito bem administrada para que eles não se sintam amputados do corpo familiar.

Pode reparar, prezado leitor: na história dos grandes monstros da humanidade há sempre o trauma perpassando pela sua infância ou adolescência. Por isso, quando um doido entra numa escola atirando e escolhendo suas vítimas,possa estar certo de que ele foi criado, ou na família, ou na sociedade, cabendo sempre a outras pessoas a culpa pela sua história de vida, que nem sempre são os pais – evidentemente – mas que no seu princípio contou com um empurrãozinho do homem para o seu inferno.

Há muito que se possa extrair da chacina do Realengo. Nossas considerações são pontuais porque acreditamos que nada mais evidente do que a participação, nesse episódio, do demônio que nós mesmos estamos criando nas mais diferentes expressões da modernidade, que incluem a desagregação da família, a liberalidade dos costumes, a falta de respeito pelos mais velhos, a falta de sensibilidade pela dor alheia, a permissividade, a imoralidade latente em todas as suas formas, da pornografia à corrupção política; o relativismo que já é cultura e que faz cultural o que há apenas dez ou vinte anos era imoral; a cultura do gersonismo de se querer levar vantagem em tudo; o comodismo, e tantos outros aspectos da vida moderna que cultivamos em nossa casa que concorrem para a liberação dos demônios que insistem em dividir em nós o espaço que é, originalmente, destinado aos anjos.

Mas, acima de tudo, o que mais concorre para que esse mundo se transforme num inferno, é a ausência de Deus, que também se manifesta em nosso coração nas nossas mais prosaicas atitudes. Nós, que fomos concebidos para a felicidade do paraíso, somos os únicos responsáveis, quando e porque queremos, pelos nossos próprios infernos.

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