quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lembranças Paralelas

Henrique Faria

Era lá pelo comecinho dos anos 60. Bem no começo, no primeiro fevereiro da década. Uma viagem que me parecia não ter volta – coisa de criança que não imagina que o tempo é um sopro da vida, tão curto que é. A Luz fervia locomotivas e vagões e me parece que não dava espaço para as locomotivas que ferviam de verdade na caldeira das Maria-Fumaças da Sorocabana apitando nos embarques e desembarques da Júlio Prestes, ali pertinho.
Não sei porquê, mas eu tinha comigo que havia uma certa prevalência da Paulista sobre a Sorocabana, talvez pelas bitolas que ambas trilhavam em Piracicaba. A Paulista, bitola larga; a Sorocabana, estreita. E mais: na Paulicéia piracicabana as duas se cruzavam, separadas por uma ponte em que a Paulista passava sobre as paralelas reduzidas da Sorocabana, coitada, que aos meus olhos dos dez anos estava sempre por baixo. Mais por baixo ainda porque eu não era seu passageiro, mas viajava com meu pai pela Paulista até me parece que Jundiaí, de onde baldeávamos para o ramal de Piracicaba.
Bons anos aqueles. A mãe, coitada, chorava desde a véspera, e na madrugada do dia da partida, levantava-se ainda mais cedo – coisa de quatro da manhã – para fazer o chá quentinho que evitava o desastre do regurgito provocado pela náusea rodoviária que causava o maior incômodo aos passageiros da Pássaro Marrom, na viagem que antecedia o embarque da Luz. No trem, não! Eu não sentia nada... Interessante... E olha que a viagem de trem era muito mais sacolejante que a de ônibus. Talvez por serem mais arejados os vagões da Paulista... Os ônibus eram acanhados e havia ainda aquele péssimo costume de passageiros fumarem durante a viagem. Uma tortura para quem não tinha o estômago mais resistente, como eu. Para mim, a partida era um começo. Para a mãe, me parecia que era o fim. Um ano sem poder ver o filho...
Era uma viagem gostosa por entre paisagens diferentes das que eu via no Vale. E havia também as mais prosaicas situações como a daquele homem-cavalo que freqüentava a linha, assustando passageiros desavisados que ainda não o conheciam. O homem era arreado, selado, e ostentava um enorme rabo de cavalo – de cavalo mesmo! – que se pendurava, não sei como, em sua derriére, na altura da cintura. Apesar da sela bem amarrada nas costas, não andava de quatro, não. Era de pé mesmo, circulando por entre os vagões com sua hipomania. Eu o vi por duas vezes em minhas viagens. Nunca soube nada que o homem-cavalo tivesse feito de maldade para quem quer que fosse. Cheguei a vê-lo como sensação numa matéria das Notícias Populares, com uma foto enorme que tomava pelo menos ¼ da capa do jornal.
Até mesmo os bancos duros de madeira da segunda classe competiam em conforto e bem-estar com os estofados macios dos Scanias ou Mercedes que faziam a linha rodoviária pelas mesmas paisagens. A grande diferença a favor dos trens – fosse na Paulista, na Sorocabana ou na Central – era a sensação de liberdade, de se estar voando, muito mais próximo da natureza pelo bafejar do vento que invadia as enormes janelas basculantes, arejando os vagões, escancaradas, num ambiente que hoje chamaríamos de clean, uma sensação gostosa de paz que aproximava os passageiros que se desconheciam como numa travessia bem-aventurada pelos campos, serras e rios além-Campínas.
Não que não tivesse havido alguns episódios obscuros pelas paralelas da Paulista... Mas eu prefiro me lembrar da minha infância na Luz, onde se iniciavam as minhas paralelas, que eu só queria mesmo que se encontrassem no infinito.
Mas, eu cresci. E vi as paralelas se perderem no finito, dando espaço às grandes rodovias que já não tinham a mesma poesia das minhas viagens pela Paulista, que se perdem em enormes rotatórias, entrelaçando destinos que já não têm mais a sensação segura de se saber onde chegar.
Eu fico aqui, lembrando do homem-cavalo e da criança que fui, tendo a Paulista e a Sorocabana como panos de fundo dos mais empolgantes momentos do teatro da minha vida. E as paralelas, que você pode entender como meras representações geométricas, para mim significam uma lembrança que só se apagará no infinito.
(Henrique Faria é jornalista e advogado)

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