domingo, 21 de agosto de 2011

Estelionato bíblico. Considerações sobre o nome de Jacó

Henrique Faria

Conta a Bíblia que Isaac, filho de Abrão, casou-se com uma mulher estéril, chamada Rebeca. Tanto pediu a Deus que a mulher pudesse gerar um filho seu, que, atendido, foi agraciado com dois meninos de uma vez. Os dois já não se entendiam na barriga da mãe, tirando dela um desabafo, como conta o Livro Sagrado:
– Se é assim, o que adianta viver?
Em suas orações Deus lhe segredou que aqueles dois briguentinhos seriam os fundadores de duas novas nações que não se entenderiam, e que o bebê mais novo – aquele que nascesse depois – subjugaria a nação representada pelo irmão mais velho, fazendo dela sua escrava. Está lá... Na Bíblia!
– Duas nações trazes no ventre, dois povos dividir-se-ão de tuas entranhas. Um povo prevalecerá sobre o outro e o mais velho servirá ao mais novo – disse o Senhor. (Gen. 25, 23).

Precursor da Lei de Gerson

Há uma outra passagem interessante, na história desses dois meninos gêmeos. O que nascera primeiro, ruivinho, já era peludinho nos seus primeiros dias, “como um manto de pele”. Seu nome: Esaú. O segundo nasceu logo em seguida, ainda segurando o calcanhar do primeiro. Ou seja, já nasceu pegando no pé de alguém. Seu nome: Jacó. Não sou eu que estou inventando esta história. Está na Bíblia, nos versículos 24 a 26 do capítulo 25 do Livro do Gênesis.
Naquele tempo, os filhos primogênitos tinham, por direito, alguns privilégios e prevalência sobre os mais novos. Esaú era um tipão mais arrojado, hábil caçador, um homem rude. E, além da preferência por direito, era mais querido pelo seu pai Isaac. Jacó, no entanto, era mais delicado, pacífico, e tinha a preferência da mãe que o paparicava mais do que ao filho mais velho. É possível que ele tenha se acostumado mal e se tornado mais jeitoso, mais “esperto” do que Esaú. Naquele tempo ainda não havia a “Lei de Gerson” e é possível que ele tenha sido o precursor do gersonismo, o exercício do “levar vantagem a qualquer custo”.

Estelionato bíblico

Certa vez, ele – Jacó – havia preparado um ensopado muito cheiroso, cujos eflúvios atingiram o irmão Esaú que chegava muito cansado, do campo. A boca do peludo encheu-se de água. E, dirigindo-se ao irmão mais novo, pediu:
– Dá-me de comer desse negócio vermelho, pois estou exausto.
Conta a Bíblia que Jacó, esperto, viu nesse desejo de Esaú a oportunidade de negociar com ele algumas vantagens que só a ele eram atribuídas. Então propôs que o irmão mais velho lhe vendesse os direito de primogenitura ao custo daquela sopa deliciosa. Esaú era parrudão, rude, meio ignorantão, e não lhe importava muito seus direitos de primogênito. Além do mais, o cansaço e a fome falaram mais alto. Assim, selaram o negócio sob o juramento de Esaú que passava ao irmão mais novo seus direitos de primogenia. E tomou a sopa de lentilhas gostosamente. Eu imagino que nem tenha sido o Jacó que preparou a sopa. Pra mim foi Rebeca que, protegendo o filho mais novo, o ajudou a aplicar o 171 em Esaú. Mas a Bíblia diz que foi Jacó. Então, o que vale é o que a Bíblia diz.
Jacó lhe deu um balão que viria constituir uma história até hoje contada pelo povo do Deus de Abraão e de Jacó – quando deveria ser de Esaú.

Outro balão memorável

Outro balão memorável foi pelo final da vida do velho Isaac. O velho pai, cego, chamou Esaú e lhe pediu que fosse ao mato caçar um bicho qualquer para lhe preparar um assado bem gostoso.
– Prepara-me um assado saboroso, como sabes que gosto, e traze-o para eu comer e assim te dar a bênção antes de morrer.”
Só que... Bem... Os dois não estavam sozinhos. A velhinha Rebeca, meio que como quem não quer nada, ouviu a conversa dos dois. E foi só Esaú ajeitar suas coisas e sair que ela chamou Jacó, seu xodozinho, e lhe contou o que tinha ouvido.
(Repito: não sou eu que estou inventando esta história. Está na Bíblia, no capítulo 27 do Livro do Gênesis).
Rebeca mandou que Jacó fosse ali mesmo, ao lado da casa, pegasse dois cabritos dos muitos que criavam no quintal, que ela mesma faria um assado do jeito que o velho gostava. Esaú, coitado... Se mandou pro mato.
– Tu o levarás a teu pai para ele comer e dar-te a bênção antes da morte.
Jacó, apesar de esperto, não tinha a rapidez do raciocínio da mãe. Você se lembra que eu disse que Isaac estava cego. E Jacó sabia que o pai iria passar a mão pelo seu corpo para sentir a pele peluda de Esaú.
– Mas meu irmão é homem peludo e minha pele é lisa! Se meu pai me tocar, ele vai me julgar impostor e atrairei sobre mim a maldição em vez da bênção.”
Mas mulher você sabe, né? Enquanto o homem está indo com a farinha, ela está de volta com o pão assado.
– Caia sobre mim tua maldição, meu filho, mas obedece-me. Anda e traze-os para mim.
Bem... Vamos encurtar a história. Com a pele dos cabritos, Rebeca cobriu os braços e parte do tórax de Jacó, sob as melhores vestes de Esaú usurpadas pelo estelionatário.
Isaac ficou meio surpreso com a rapidez da caça, é verdade. E também estranhou a voz do moço, achando que era a voz de Jacó. Mas, apalpando os braços do filho embrulhão, notou que eram peludos – ora... os pelos dos cabritos – como os braços de Esaú. E tem mais: sentiu nas vestes de Jacó o cheiro do filho mais velho. Tadinho... Ceguinho de tudo, acabou abençoando ao filho errado.
Nem preciso contar que Esaú chegou depois com a caça e percebeu que levou o maior chapéu do irmão enganador, ficando sem a bênção especial do seu pai.
Se você quiser saber o que aconteceu depois, leia a Bíblia. Está no Livro do Gênesis, do finalzinho do capítulo 27 e do 28 em diante. Tem muita história pela frente.

O nome de Jacó

Deus sabe o que faz e a quem escolhe. Mas o nome de Jacó está vinculado à idéia de “enganador, mentiroso, trapaceiro”. Isto não é verdade, no que toca à etimologia da palavra.
Yaakov é um nome muito honrado. Quer dizer “suplantador” e deriva de uma outra palavra que em hebraico quer dizer “calcanhar” (akêb). Isso lembra que já na barriga de Rebeca o calcanhar de Jacó devia esticar-se todo para cutucar o irmão. Isso a Bíblia não fala, mas que ele saiu de lá segurando no calcanhar do irmãozinho que havia posto a carinha pra fora, primeiro, está escrito!
É com o calcanhar que a gente esmaga os insetos indesejáveis, que a gente demonstra poder, que a gente subjuga. A gente calca. Pisa. Suplanta. Yaakov, como “suplantador” traz a idéia de vencer o adversário, levar vantagem sobre, ser superior, exceder, sobrelevar.

Por que “enganador”?

A ligação do nome de Jacó à mentira e à trapaça é aventada pelo próprio irmão quando se sentiu lesado pela perda da bênção:
– É com razão que se chama Jacó, pois com esta já são duas vezes que me suplantou: primeiro tirou-me a primogenitura e agora subtraiu-me a bênção. (Gen. 27, 36)
Aqui a palavra Jacó está ligada à raiz “akob”, com o sentido de enganar.
Seja como for, Jacó, de bem com Deus, acabou por trocar o seu nome para Israel. Meno male...
Mas se a moda pega... Tem muito Jacó que iria se tornar rapidinho Israel...

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