segunda-feira, 1 de agosto de 2011

É bonito ser feio?

Henrique Faria

Nem sempre a feiúra está na raiz do preconceito. Há quem lide com ela com muita desenvoltura, com simpatia até, às vezes até com certo orgulho, como se ser feio fosse a coisa mais bonita do mundo. Então, por exemplo, não é a feiúra e o ridículo a que se submetem os gays em grandes passeatas, que alimentam o que elas chamam de preconceito sobre a sua liberdade de optar pelo seu direcionamento sexual (como se homem e mulher, cada qual pela sua natureza, já não fossem direcionados a serem machos e fêmeas respectivamente). Mas, enfim, não é dos gays que eu quero falar.
A feiúra tem o seu lado bonito nas conversas em nossos barzinhos, quando juízes, promotores, engenheiros, advogados, médicos, bem sucedidos executivos de nossas emergentes empresas de componentes de aviação, ou até alguns padrecos que se arriscam às tentações etílicas, sentados gostosamente em varandas pelos passeios de nossa cidade, quando se ouvem pérolas do mais requintado português, coisa parecida com “Ferida! Cê me troca déi real?”. “Ferida”, o dono do bar, nem bem acaba de ouvir o pedido, quando o engenheirozinho se dirige ao promotor: “Dexa, dotor, aqui é nói! Ferida! Manda mai dua. Ah! Manda 1 chopps e 1 pastéis tamém!”. “Ferida”, conhecido pela elegância e fino trato, responde: “É doi palito!”
A fina flor da sociedade se impõe à catarse, deixa emergir o monstro da ignorância, o mazzaropi que existe em cada um, num louvor eloqüente à caipirice, como se ser caipira fosse a mais lídima expressão da nossa cultura, colocando abaixo seus diplomas universitários, suas pós, seus mestrados e doutorados. Infelizmente, esses são nossos formadores de opinião. Resultado: dá no que dá.
Você de Taubaté, que já passou dos 60, me diga uma coisa: dos últimos cinqüenta anos para cá nós tivemos um candidato que fosse, a prefeito municipal, que não fosse caipira? Eu falo em candidato, não falo de eleito... Você já parou pra pensar no perfil dos prefeitos de São José Campos, cidade que já superou em muitos anos o estigma que a colocava como a cidade onde os passarinhos tossiam em vez de piar, e outros atributos que, se eu citar, posso ser enquadrado por xenofobia (longe de mim isso...)? Lá eles deixaram de votar nos amigos de boteco, nos demagogos e populistas há muito tempo. (É bem verdade que o meteórico progresso de São José deveu-se aos anos de intervenção federal, quando, por ser cidade estratégica de segurança nacional, eram nomeados pelo Poder. Sorte deles). O povo aprendeu o que é bom. E foi sempre sabendo escolher gente de visão, empresários bem situados que acham que o bonito é ser bonito, não falam “déi real”, “doi palito”, “aqui é nói”, que teriam vergonha de instalar em praça pública um monumento ao 14 Bis nas dimensões que os nossos feios instalaram aqui, na praça Dr. Monteiro.
Os gays que me perdoem – algumas até são bonitinhas – bem como os freqüentadores dos nossos barzinhos da moda, mas feio é feio e até a relatividade da feiúra é relativa. E, pelo andar da carruagem, vamos continuar ainda por quatro ou oito anos, sendo a capital da feiúra.
Longe de mim qualquer preconceito contra essa caipirada que está babando sobre a cadeira do Peixoto, mas você acha, mesmo, bonito ser feio?

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