sábado, 6 de agosto de 2011

Na ilha do Planalto

Henrique Faria

A presidente Dilma Rousseff, me parece, é uma pessoa bem intencionada. Tem um histórico de luta diferente do seu padrinho político. Além de ter sofrido na pele – na pele mesmo! – as sevícias da tirania de um governo totalitário que, com certeza jamais quer enfrentar de novo, as suas incursões políticas na história da república recente são voltadas mais para a gestão administrativa. Tendo circulado nas instâncias municipal, estadual e federal sempre exercendo cargos de gerenciamento, compõe um perfil de competência aliado à de honestidade – e longe de mim qualquer preconceito em relação à integridade masculina – e à condição de ser mulher. Ou seja: a possibilidade de ter vergonha na cara é muito maior.
Já o patrocinador da sua candidatura à presidência da república tem um currículo totalmente diferente. Apesar de ter tomado café de canequinha nos porões do DOPS na década de 1970 por alguns dias, não tem uma história como tem a sua afilhada. Afora o tempo em que vendeu banana no Pernambuco, vindo para São Paulo trabalhou muito pouco e se infiltrou nas mordomias do sindicato desde muito cedo. Enfrentou barras pesadíssimas, reconheço. Tem o mérito de alçar a sua classe de trabalhadores metalúrgicos a uma casta privilegiada dentro da massa trabalhadora nacional. Mas parou por aí. Foi um grande sindicalista. E, como tal, um grande articulador, um negociador respeitado, com o mérito de ser um grande jogador de... conversa fora, o que ele mais sabe fazer. Apesar de ter legado ao país a eleição de uma mulher para presidente, não consegue desgrudar a sua sombra do palácio do Planalto.
Lula deixou para Dilma um staff viciado em todos os níveis do poder. Não se pode fugir da realidade: os partidos que dão sustentação ao governo estão instalados nos ministérios, em seus órgãos e agências controladoras estratégicos, para se locupletarem. Para satisfazerem os interesses pessoais dos políticos e de seus apaniguados. Não que os partidos de oposição, com destaque ao PSDB, estejam imunes aos privilégios concedidos pelo poder. Eles também levam a sua cota. Aliás, interessante notar que o governo do PT sofreu muito mais denúncias de corrupção e assistiu a muitos e mais tonitruantes escândalos do que o governo FHC bancado pelos tucanos. Não porque seja mais corrupto, mas porque (o PT) tem uma oposição muito mais competente. No governo FHC a oposição era pífia, bravateira. Já o governo PT enfrenta uma oposição que conhece o caminho das pedras. Por terem sido tão corruptos quanto, os homens da oposição sabem em que curvas conseguem surpreender seus adversários. Portanto, sobram demônios em Brasília.
Nesse inferno de hipocrisia Dilma circula, já sem desenvoltura, ilhada pelo dever de lealdade ao homem que a ascendeu ao terceiro andar do Planalto e amargurada em sua própria consciência que a fez intervir, em oito meses, em quatro ministérios diferentes, ruminando ainda a traição de Antonio Palocci, o descarte de Alfredo Nascimento, o descaramento de Nelson Jobim e...( aguarde um novo escândalo no Ministério da Agricultura, cuja bola já foi cantada pela revista Veja em sua edição de 3.8.2011).
Acredito que ainda não possa acontecer nos primeiros quatro anos de seu governo, mas se ela optar por mais quatro, na segunda quadra ela dá uma porrada na mesa e diz: “Aqui quem manda sou eu!” e quem sabe possa resgatar o ideário ético que fez o povo acreditar, em 2002, que a nossa hora havia chegado.

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