quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Deus que eu vejo humilhado

Henrique Faria

Eu gostaria de conversar com você, leitor, coisas mais positivas, mais bonitas, discorrer como o monsenhor Jacó, em suas homilias pasteurizadas, sobre a maravilha da Trindade, a exaltação à divindade, onde ele próprio se acha a figura de Deus exaltado; com aquela mesma candura com que ele se dirige aos seus fiéis fazendo tipo de padre terno (parecido com presidente de partido em programas de horário político gratuito... Eles não são fofos?); dizer da harmonia dos coros de querubins – se é que são os querubins que cantam no paraíso – ou a graça dos serafins em suas tocatas, tirando das cítaras um som encantador. Eu queria, como ele, falar com tanta propriedade sobre a Virgem Maria, fazendo você entender porque ela é o vaso insigne de devoção, casa de ouro, mãe intemerata... Você sabe o que é intemerata? Pergunte ao monsenhor Jacó. Ele deve saber.
Mas acontece que eu vivo, como você, no mundo dos homens, onde a presença de Deus é encarnada de fato. Então, quando eu vejo um irmão sendo humilhado, eu vejo Deus humilhado. Eu vejo Deus se levantando às duas da manhã para disputar um lugar na fila do hospital, para ver se consegue uma senha para seu exame, no único dia do mês em que o SUS leiloa a chance de você ser atendido no mês seguinte. Quando Deus chega na porta do Regional a fila já está grande. E o dia nem nasceu ainda, são apenas 2h30 da manhã. Às 7 Ele tem uma surpresa: a senha acabou. E Ele vai ter que voltar – então ainda mais cedo – daí a um mês para ver se consegue uma senha para daqui a dois meses. Resultado: quando Ele conseguir uma ultrassonografia dos rins, Seus sacrossantos órgãos estarão oito ou dez meses mais comprometidos. E tome dor por esse tempo todo.
Eu vejo Deus humilhado quando ele anda a pé 12 quilômetros para chegar a sua escola – isso aqui, no Vale do Paraíba, uma das regiões mais prósperas do Brasil –, mais para filar a merenda do que propriamente para aprender, mesmo sabendo seus pais que a gororoba não é lá essas coisas. E O vejo humilhado também quando constata que somente a perspectiva da Copa do Mundo e das Olimpíadas é que fizeram o governo botar os bandidos pra correr, depois de Ele ter assistido à morte por balas perdidas de tantos irmãozinhos Seus. Eu O vejo humilhado também na sua busca por um emprego melhor, ou na busca do Seu primeiro emprego, sujeitando-se a salário vil, oprimido pelo capitalismo selvagem que só se volta para o lucro, achando que empregado é despesa e não investimento. Eu vejo Deus humilhado, quando após trinta e cinco anos de trabalho a Previdência lhe reserva uma esmola que mal dá para os remédios. Eu vejo Deus humilhado quando Ele já não tem nem força mais para pedir e se prostra em nossas calçadas, sujo, doente, desprezado, sem amparo da sociedade. Eu O vejo humilhado, nascendo a cada dia em nossas maternidades, sem assistência. Enfim... Para cada Deus exaltado neste mundo, eu vejo pelo menos cem humilhados.
E pego a bíblia da nossa sociedade – que aqui chamam de Constituição Federal – que Lhe garante os seus direitos sociais, no seu capítulo II, versículo 6º sexto,e vejo como Ele é discriminado. Descartado como gente.
Eu, que não sei o que é mãe intemerata, acompanho o monsenhor Jacó no que ele ainda tem de residual sensatez, para pedir à Mãe de Misericórdia, que olhe por seu filho com mais atenção do que olha para o monsenhor, já que Ele não tem sido visto nem pelo Poder, nem pela nossa sociedade como o único detentor dos direitos e garantias fundamentais apregoadas pela nossa constituição, e prometo a ela que da próxima vez eu vou pensar melhor antes de votar nessa raça da lacaios que está por aí. E peço a ela, como Sede da Sabedoria, que ilumine cada vez mais o monsenhor nas suas homilias, para que faça seus fiéis enxergarem um pouco mais além da sombra das cavernas.