terça-feira, 1 de novembro de 2011

QUE POSSAMOS TER PELO MENOS O NECESSÁRIO

Henrique Faria

A doença do ex-presidente Lula enseja alguma reflexão. Evidentemente que nós cristãos somos solidários com ele nesse momento crítico e desejamos, como desejamos aos milhões de contribuintes do INSS e aos outros tantos que nem INSS têm e que precisam se valer do SUS para cuidar da sua saúde, que ele tenha sucesso no seu tratamento e que sua doença não passe dos efeitos da pirotecnia que a mídia vem lhe imprimindo.
Mas ao nos referirmos aos SUS não tem como esquivar-nos da pergunta: ora, se a saúde vai tão bem no país e o SUS tem atendimento de primeiro mundo como ele próprio alardeia e alardeiam os caríssimos anúncios oficiais veiculados na televisão, por que Luiz Inácio não se sujeitou a se tratar na rede pública de saúde, procurando um dos mais caros e, diga-se de passagem, mais eficientes hospitais do Brasil? Você responderia: porque ele pode pagar.
Concordamos plenamente que quem pode pagar deve mesmo procurar os melhores recursos e seria uma estupidez uma pessoa dessas sujeitar-se a se deitar numa maca estacionada num dos corredores sujos e infectos dos nossos hospitais públicos – com algumas exceções – aguardando por dois ou três dias o momento do médico mandar que abra a boca para enfiar-lhe a palhetinha na garganta.
Não iríamos exigir isso do ex-presidente. Mas fica evidente que o SUS não tem condições mesmo de garantir um tratamento eficaz. Vale reproduzirmos aqui alguns números divulgados pelo Tribunal de Contas da União, segundo uma reportagem da Folha de S. Paulo, que o jornalista Gilberto Dimenstein publicou em seu blog: no ano passado, 60 mil pacientes portadores de câncer não conseguiram se submeter a tratamento radioterápico; como se esse número não fosse o suficiente para sensibilizar o nosso governo, 80 mil não puderam se submeter a uma cirurgia de extração de tumor. E o pior: detectada a doença, o tempo máximo sugerido para espera do tratamento é de 30 dias. Mas, no Brasil, segundo o TCU, dos que conseguem atendimento em radioterapia – repetimos que 60 mil não conseguem – , apenas 35% o conseguem no prazo de risco, sendo a média de espera de 77 dias, na melhor das hipóteses. Na quimioterapia a situação é pior: a média de espera é de 112 dias e somente 16% dos pobres privilegiados conseguem atendimento no primeiro mês.
Isso só para falar muito superficialmente do câncer. Outras doenças têm da mesma forma o mesmo tratamento. Algumas piores. Nossos hospitais públicos são verdadeiros circos de horrores.
E pensar que nós temos dinheiro para isso! Com uma das maiores cargas tributárias do mundo, o Brasil deixa escoar pelo ralo da corrupção o dinheiro que arrecada, que daria para Luiz Inácio ser atendido, com todas as honras de um ex-presidente, em um hospital do SUS. A riqueza que seria para ser repartida entre os muitos milhões de brasileiros é saqueada por uns poucos, que chegam talvez a sete ou oito centenas de ladrões que têm em Brasília a sua caverna maior, e a senha tupiniquim, equivalente à da versão das mil e uma noites, codificada por Ali Babá, com as doze letras do “Abra-te Sézamo!”.
Nada de execrar o pobre ex-presidente – que se iguala aos pobres mortais num momento como esse – por ele poder ser tão bem atendido. Nós não queríamos dividir com ele a nossa pobreza, mas gostaríamos que ele dividisse conosco a sua riqueza. Afinal, ser solidário na pobreza é pedir esmola para dois. Nós temos que dividir é a riqueza, mas enquanto ficarmos trocando votos por dentadura ou por uma merreca de uns míseros poucos reais do Bolsa Família, vamos continuar sendo pobres. Isso vale para você também que não tem dentadura e tem seus dentes bonitos, ou que nem vive dos favores do governo.
Deus salve o rei! Deus salve a rainha! Deus salve esse povo e lhe permita viver com saúde! E se os amigos do rei têm o direito a tudo, que seus súditos tenham acesso pelo menos ao necessário!

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