terça-feira, 13 de março de 2012

EROTIZANDO A LITURGIA

Henrique Faria

Que me perdoem os moralistas. Não vai faltar quem diga que tenho uma mente consumida pela malícia. Mas eu sigo minhas considerações baseado na linguagem corporal do que vejo e ouço e não do que imagino.
Está cada vez mais comum a gente, que é católico bem formado, que conhece um pouco da liturgia e do rito em suas formas mais puras, deparar-se com certos abusos durante as celebrações, que passam despercebidos pelos ingênuos – que, aliás, têm a preferência de Jesus – aviltando, de certa forma, o rito sagrado.
Experimente, você, analisar com paciência uma cerimônia de casamento. É um verdadeiro happening. Conformado com o custo benefício da celebração, o pároco contabiliza a féria de um final de semana com a satisfação de um dono de boteco que vê no sábado e domingo – sexta feira à tarde, às vezes – a sua chance de tirar o pé do lodo, faturando pela semana inteira. É assim que ele permite os abusos – bem... nem são mais abusos, são verdadeiras indignidades – perpetrados contra o rito, a celebração do sacramento, o momento maior da presença de Deus numa união que, convenhamos, começa muito mal. Não existe assembléia. É platéia. Não se trata de uma celebração. É um show. Os cantores não cantam. A orquestra não acompanha. Eles exibem sua performance. Cantos litúrgicos? Nem pensar! É inglês que, às vezes traduzido, traz letras eróticas, pornográficas, impróprias para aquela celebração.
Mas não é só. Em algumas missas, a cantora que conduz a animação litúrgica, revela-se uma excelente profissional. ... de barzinho! Tem uma voz linda. Ela própria é muito linda e, não raro, se a missa é na parte da manhã, chega para cantar ainda com seu paramento da noite. É envolvente. E seu jeito de cantar, cheio de gemidos que beiram o erótico, imprime ao sagrado rito um clima parecido com o clima pré-motel com que embalou tantos casais horas atrás.
Eu tenho pena do padre, a quem a tentação vem no momento mais inadequado. Mas, aqui entre nós, ele gosta. Ele entende que, afinal, é próprio da juventude essa piedade erótica. E é assim que ele vê também as suas missas invadidas pela galera – santa invasão, diga-se de passagem! – que faz tanto barulho que eu acho que chega a atormentar a cabeça do Pai.
Eles importaram das grandes bandas heavy metal o erotismo e a violência das melodias (melodias?) às quais emprestam letras de louvor que, se não agradam a maioria mais idosa da assembléia, agrada a Deus, com certeza, porque é o que eles sabem dar. São músicas do diabo com letras de Deus. E chamam isso de gospel.
Nós, sexagenários, não somos contra. Afinal, a cantora gemebunda e as bandas metálicas que valorizam nossos cultos são frutos da nossa geração que inventou que “é proibido proibir”, deixando correr frouxo certos abusos que a gente nem sabe onde vai dar. O que vamos acabar fazendo é nos organizar em associações que terão por objetivo protestar contra a discriminação que nos alija dos cultos litúrgicos e reivindicar a nossa inclusão cúltica nessas modernagens de hoje para não sermos esquecidos, no nosso silêncio, pelo Senhor.
Nós também gostamos do erótico. Mas com a nossa liturgia própria. No silêncio, em que a participação de Deus faça sagrado o que as quatro paredes não precisem alarmar.

Um comentário:

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