quarta-feira, 21 de março de 2012

O BATMAN TUPINIQUIM ENTRE O RESPEITO E O DEBOCHE

Henrique Faria

Em que pesem as boas intenções da comandante do batalhão da Policia Militar do Estado de São Paulo, sediado em Taubaté, ao convidar o militar aposentado André Luiz Pinheiro – que atende pelo nome artístico de Andy Trevisan – para incorporar a figura do Batman no trabalho de prevenção à violência e criminalidade junto às crianças da cidade, a iniciativa apresenta outras conotações além do insólito.
A reação da mídia varia entre a simpatia e o deboche, com opiniões diferentes sobre a seriedade ou não, divergindo entre o grotesco e o criativo como medidas pedagógicas de prevenção e educação para a cidadania. Considerando boas as intenções do homem que compõe o personagem de quadrinhos norte-americano, ainda que possamos considerar também uma genial jogada de marketing para a sua atividade lúdica que incorpora este e outros personagens para animação de festinhas infantis, em primeiro plano gostaríamos de elogiar a iniciativa da comandante militar. No entanto, haveremos de considerar também que as boas ações, por melhores que sejam, não justificam os meios de implementá-las quando estes não sejam tão ortodoxos assim.
Se é discutível a ortodoxia do método de usar um personagem irreal, que evoca violência e trapaças nas histórias que protagoniza – afinal, o Batman nunca está sozinho com seu discípulo Robin: ele tem na sua cola sempre a figura do temível Coringa que também ensina suas maldades e maracutaias – não podemos desconsiderar a dupla convergência da pedagogia quadrinhista presente nas histórias criadas por Bob Kane.
Por outro lado, considerando que Batman é um personagem tipicamente norte-americano, temos como abissais as diferenças culturais entre as crianças norte-americanas e as brasileiras, já que a nossa realidade é completamente outra. Nem uma nem outra é melhor ou pior. Mas, com certeza, o justiceiro de Ghotam City é só mais um entre os inúmeros personagens que protagonizam cenas de violência, criando no imaginário das crianças de Tio Sam uma turbulência que, às vezes, termina até mesmo em massacres em escolas, perpetrados por menores de dez ou doze anos, com perdas irreparáveis para as famílias. Evidentemente que não queremos ser alarmistas a ponto de achar que, no Brasil, as histórias de Batman ou de outros super-heróis que lutam contra o crime, pudessem influenciar tão perniciosamente as nossas crianças.
Mas, aqui entre nós, se há alguma criança que ainda pode receber alguma influência positiva dos apelos pacificadores do Batman de Taubaté, são poucas e talvez ainda não tenham atingido a idade da razão, porque as maiores, já passadas dos nove ou dez anos, entendem a irrealidade da mensagem e não levam a sério um personagem tão inverossímil.
Há tantos outros métodos muito mais eficazes e sedutores para reunir crianças e adolescentes em torno de uma atividade de conscientização, muito mais agradáveis; como há também muitos personagens reais que podem fazer o trabalho que o Batman tupiniquim se propõe fazer. As crianças poderiam ser reunidas em torno de um clubinho, que promovesse entre elas atividades lúdicas e de entretenimento, até mesmo de pequenas aventuras, como são os escoteiros, por exemplo, com esportes coletivos, passeios, acampamentos, pequenas viagens, contato com a natureza nos finais de semana. Nessas atividades, seguindo o conceito peripatético secular dos pedagogos gregos, é que entraria a figura do coordenador, levando a elas sempre nesses momentos os mais palpitantes temas de cidadania, que incluem a prevenção contra as drogas e a violência. Esses clubinhos poderiam ser criados em cada pequena comunidade, mesmo sem vínculo com as Igrejas ou a escola, para que a criança se sentisse em um mundo diferente do seu dia a dia. Poderiam ter a assessoria de educadores, com a participação de pais.
Há ainda projetos mais ambiciosos que incluem a formação musical de crianças de comunidades carentes, como o belíssimo trabalho que se desenvolvem em algumas localidades brasileiras, tendo por exemplo maior a orquestra de Heliópolis ou, se você não conhece, o sistema nacional de orquestras juvenis da Venezuela, um trabalho criado e desenvolvido por um empresário comum – José Antonio Abreu, em 1975 – , que figura entre os mais eficazes e bonitos trabalhos comunitários do mundo.
Há muitas formas de reunir as crianças em torno de um trabalho de formação e prevenção, sem que seja necessária a presença de um herói irreal e, ainda por cima, importado de um país que se constitui no maior exportador de violência do planeta.
E... convenhamos: muitas maneiras de viabilizar projetos que não coloquem nossa cidade na fronteira entre o respeito e o deboche

Um comentário:

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