domingo, 11 de novembro de 2012

BENÇA, PAI! BENÇA, MÃE!

O Facebook tem lá as suas inconveniências, mas tem também as suas qualidades. O que deveria ser um fórum para diálogo, debates, troca de idéias, troca de afabilidades, partilha e solidariedade, enfim, um espaço que realmente se prestasse a uma rede social, ou seja, uma rede que se tornasse realmente utilizada para tornar as pessoas mais próximas, constitui, em grande parte, um espaço de futilidades, quando não de situações vexatórias, preconceituosas, constrangedoras, deboches. No entanto, há também muita gente que usa a rede social para dar seus testemunhos de vida, promover a solidariedade, conscientizar, promover cidadania, evangelizar. Entre outros milhões de mensagens positivas que rolam pela rede, uma nos chamou à atenção: “Você ainda fala ‘bença, pai’, ‘bença, mãe’, bença, vó’? As crianças de hoje perderam esse hábito... uma pena”, diz um quadro estampado na telinha. Realmente é uma lembrança oportuna. O respeito entre filhos e pais vem caindo em desuso graças a uma cultura que vem se estabelecendo desde a década de 1970, quando uma revolução de costumes tomou conta da sociedade ocidental. A contracultura, iniciada no meado dos anos 60 do século passado, rompeu com valores convencionalmente aceitos pelos mais diferentes segmentos sociais, que, de certa forma, moldavam a sociedade ocidental dentro, mais ou menos, dos mesmos paradigmas. Um jovem inglês ou alemão, por exemplo, tinha mais ou menos os mesmos hábitos familiares do jovem ou da criança latinos, unindo os extremos do naco ocidental da humanidade no que diz respeito aos seus valores familiares. Por essa época começa a propaganda da liberalidade sexual das nações escandinavas, que vêm de encontro com a ansiedade juvenil, fortemente influenciada pela mensagem hippie de “faça amor, não faça a guerra”, “sexo, drogas e rock’n roll”. Os pais e avós de hoje viveram com intensidade os apelos da contracultura. Dentro deste quadro, numa interpretação bem periférica sem o aprofundamento sócio-cultural que a matéria merece – e que dispensamos pela exigüidade do nosso tempo de locução – os jovens pais dos anos 70 passaram a estabelecer distâncias mais curtas entre eles e seus filhos, influenciados por uma pedagogia que os induzia a serem mais amigos do que pais de seus filhos. Todo exagero é burro. E é possível que aí tenha se exacerbado a rebeldia jovem e adolescente, manifestada em atos às vezes extremos, como a adesão ao uso de drogas, à liberalidade sexual, à violência, ao bullying. É possível também que os pais, ainda perplexos diante de uma revolução cultural muito rápida, modificando costumes que nas décadas anteriores seriam modificados dentro de um tempo muito mais elástico, não tenham se preparado para o mister da paternidade e da maternidade. Os apelos de “faça amor, não faça a guerra” se estenderam para as relações familiares, levando os pais a tratarem seus filhos mais como amigos do que como filhos. Os limites foram estendidos. Já não se chamava os pais de “senhor” ou “senhora”. Ao atenderem o chamado dos pais, os filhos respondiam perguntando “o quê?”. Uma resposta dessa era severamente repreendida dos anos 60 para trás. Pais e mães passaram a ser “você”. Os filhos, agora amigos e participantes em grau de igualdade da sociedade familiar, dividiam suas opiniões em conversas de adultos, mesmo sem serem chamados; ouviam assuntos que não lhes eram pertinentes. Some-se a isso a propaganda dos meios de comunicação, notadamente da televisão, desses contravalores que se instalavam no ambiente familiar, ditados por uma minoria constituída por diretores e artistas que promoviam (e promovem até hoje) a contracultura, que entre outros desvalores, traz em seu bojo a dissolução da família. Nós, hoje, pais e avós moldados pela contracultura dos anos 70, não nos atentamos para uma insofismável definição: pai é pai, mãe é mãe, amigo é amigo. E o pior: desdenhamos a realidade de nossos filhos terem amigos muito mais interessantes da idade deles. Nesse roldão, o sagrado hábito de se pedir a bênção aos pais, avós e tios perdeu, em pouquíssimos anos, a sua freqüência nas relações familiares. Acreditamos que seria muito mais saudável que a distância entre pais e filhos se encurtasse, é verdade, mas que seus limites não fossem esquecidos. Acreditamos também que o abuso perpetrados pelos filhos na rua, na escola, no trabalho, nas baladas, enfim, nas suas relações com seus amigos com os quais se identificam com mais intimidade em função da idade, poderiam ser minimizados se, ao saírem de casa, seus pais os abençoassem, entregando-os nas mãos de Deus ao responderem a um “bença, pai” ou “bença, mãe” com um afetuoso “Deus te abençoe, meu filho”, “Deus te abençoe, minha filha”.(Henrique Faria)

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