sábado, 3 de maio de 2014

O DIA QUE O PAPA ACEITOU SEU PRAZO DE VALIDADE

Andei fazendo uma limpeza nos meus arquivos e achei este texto que, não sei por quê, não havia publicado. Segue aí com um pouquinho de atraso.

Se todo mundo pode dar palpite sobre a renúncia do Papa eu também posso. Bento XVI não me surpreendeu com a sua atitude. Para quem entrou com o vigor que ele entrou e chegou em apenas oito anos a esse estado de penúria que lhe legou a cátedra de São Pedro, com o perfil de Ratzinger, só poderia mesmo dar nisso. Acho que ele deu uma tremenda banana aos purpurados da Cúria Vaticana, que como nós, brigam pelos aposentos funcionais, como brigaram os cardeais Sodano e Bertone, este o secretário atual e aquele o secretário anterior do papa, que retardou o quanto pôde em entregar as chaves da alcova secretarial. Secretarial? Existe isso?
As revelações exaladas pelos papéis surrupiados pelo mordomo papal – exaladas mesmo, porque não chegaram à clareza das revelações dignas de um romance de Dan Brown – talvez tenham sido a gota d’água na decisão beneditina, acalentada, segundo Frederico Lombardi – o Lula do Vaticano, que não viu nada, não sabe de nada, não conta nada – desde um pequeno acidente sofrido pelo papa em sua viagem ao México.
Os documentos expõem à nudez as picuinhas curiais muito mais afeitas às humanidades episcopais e cardinalícias – ou seja: os “monsignori” que transitam no dia a dia dos corredores da Cúria Vaticana estão muito mais próximos das vicissitudes humanas que da beatitude angelical – em detrimento do debate de grandes temas que deveriam provocar o “aggiornamento” proposto pelo Vaticano II. Eu digo “grandes temas”, porque, Bento XVI provavelmente ria – intelectual de primeira grandeza que é – dessas miudezas como a tolerância com o uso de camisinhas, casamentos gays, ordenação de mulheres para o ministério sacerdotal, e outros probleminhas que ele sabia que, de uma canetada só, ele poderia resolver.
Acho que a Cúria Romana era muito pequena para Bento XVI, que não escapou à regra geral sobre o desastre que é a intelectualidade no poder. Poder é para “pião” ou para profissionais da política, no que bem se aproximam certos prelados que se alvoroçam com a proximidade de um novo conclave.
E lá Bento XVI tinha tempo para saber a quantas andavam as finanças vaticanas? Tadinho... Ele não tinha jeito nem para pegar criancinhas no colo... Ele queria era escrever. Produzir teologia. E o fez com a grandeza de quem discute com Agostinho ou Tomás de Aquino, e sem dever nada aos próceres da intelectualidade teológica dos dias de hoje. Com este perfil, você acha mesmo que um Ratzinger iria deixar vazar por entre os dedos os anos que lhe faltam cumprir nesta jornada terrena, tentando fazer andar um mecanismo emperrado pelas ferrugens da humanidade, quando lhe foi prometido funcionar com o besunto do Espírito?
Ele aceitou ser papa em nome da memória do seu antecessor que o queria para isso. Mas era para ser um papa de transição. Oras... Já se passaram oito anos e até quando vai essa transição? Acho que ele pensou bem, pensou, pensou... Ó! Vocês querem saber de uma coisa? Morrer eu não vou mesmo tão cedo. E o meu prazo de validade esgotou... vivo! Vivinho! Então: pernas pra que te quero? Ou melhor, pernas pra que “vos” quero, afinal Ratzinger não iria cometer um erro de concordância. Fui!

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