sábado, 3 de maio de 2014

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Segue mais um artigo não publicado na época pertinente, mas que o faço agora:

O PODER E A ONDA. O DIA QUE O PAPA VOLTOU A SER RATZINGER

Os críticos da Igreja se refestelam com o noticiário que dá conta de possíveis escândalos na origem da decisão de Bento XVI em abandonar o barco. Para mim, a fé em Jesus Cristo, a confiança em sua mensagem e a certeza de um mundo melhor que existe além das fronteiras do tempo e do espaço não se sentem abaladas por possíveis desvios de rota de gente que tem tudo para conhecer o melhor caminho, mas que parece entender que pela aventura a viagem é mais empolgante.
Reconheço que deve haver, pelos corredores do Vaticano, a mesma tendência ao “bem-estar”, (inegavelmente reconhecido pelo cardeal Martini antes de morrer, em agosto de 2012) que existe em nossos cleros diocesanos, em nossas cúrias e paróquias, freqüentadas por gente e não por anjos. Acho que os anjos vacilam um pouco, quando seus protegidos vestem barretes e manteletas, se paramentam do carmim e desfrutam com mais proximidade das benesses do poder que Jesus transmitiu a um humilde pescador. Eles acham que seus apaniguados não precisam de tanta proteção. Afinal, estão tão pertinho de Deus... Aí, dá no que dá...
A Igreja tem uma história de pecado de mais de dois mil anos, mas o que a sustenta é a graça, muito maior que o mal, inaugurado ainda na presença de Jesus, quando um de seus escolhidos pisou solenemente na bola, como pisam os curiais romanos, farfalhando suas batinas entre um pecadinho e outro. Ou... entre um pecadão e a hipocrisia em escondê-lo debaixo do tapete.
As denúncias que vazaram pela infidelidade do mordomo – sempre ele, o mordomo! – são vicissitudes próprias de pessoas muito próximas do poder. Como manter a santidade de uma instituição com um colégio que não foi educado para ser santo, mas para sustentar um ente rico e poderoso, muito longe da realidade do mundo atual, em que 80% das pessoas estão classificadas como pobres e miseráveis?
Santos são os padrecos – aqui, num tom bem carinhoso – que partilham com suas comunidades de periferia a fome, o desemprego, a violência, a opressão, a falta de oportunidade para a educação formal universitária, a indignidade da moradia, intergalacticamente inferior à suntuosidade dos palácios romanos. Esses, sim, têm sensibilidade para perceber que o seu “bem-estar” não deve ultrapassar o conforto de apenas uma túnica, o despojamento do ouro e da prata, da sacola e do bastão, a satisfação apenas com o salário a que tem direito. Mas eles nunca vão chegar ao poder.
Acho que o papa pensou nisso tudo, viu a viola em caco com a barca soçobrando entre as vagas que prenunciavam um tsunami, e decidiu: “Eu estou muito velho para segurar essa onda!”. E voltou a ser Ratzinger.

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