terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

DEUS É MUITO SIMPLES. EXCETO PARA OS TEÓLOGOS, FILÓSOFOS E POETAS

Henrique Faria

Leio a carta de um amigo convertido que buscou entre tantas filosofias uma explicação que o convencesse da existência de Deus. Devorei a sua carta rapidinho, ainda que um texto denso, cheio de citações, filósofos dos quais nunca ouvi falar. Quem me conhece sabe que sou meio avesso a “filosofadas”, mais pelas minhas limitações intelectuais do que propriamente por mero preconceito. Mas o texto me seduziu.
No começo, ainda sem tanto interesse, não me faltaram os muxoxos de quem se enfadonha por teorias que acha desnecessárias para explicar como enxergar aquilo que se vê. Não sei se é presunção da minha parte, mas eu dispenso a fé para acreditar que Deus existe. Eu o vejo. E vejo a fé como instrumental para fazer com que Deus viva em mim e que eu consiga fazer com que ele possa viver no meu irmão. Quando eu digo “viva em mim” não quero dizer exatamente que Deus se encarne em minha pessoa, mas que eu seja a sua imagem e semelhança. Não exatamente uma imagem de espelho (Deus refletido em mim), mas uma proximidade da minha pessoa com o que é Deus, adquirida Dele por herança genética, que nos torna semelhantes. Evidente que estou muito longe disso. Neste sentido ainda acho a minha fé ainda muito pífia, inconsistente.
Pois bem. Vamos à carta do meu amigo. Fui lendo, lendo e, de repente, não queria parar antes de chegar à ultima página. Simplesmente magistral a sua profissão de fé. Não apenas no sentido estético e filosófico – dons que ele manipula como um artista e um intelectual – mas, acima de tudo, vista sob o aspecto da emoção da fé. Ele traça o roteiro da sua conversão, dolorida, pelos meandros da razão, ruminando os grandes luminares da filosofia clássica, da teologia acadêmica e até dos proscritos revolucionários da teologia da libertação. E descobre que Deus, não obstante o pensamento humano que dele se ocupou por mais de cinco séculos de busca, se descobre pela fé. Foi a certeza da Ressurreição que o convenceu.
Não tenho a cultura filosófica ou teológica que possam nivelar a minha crítica com o seu pensamento. Por isso quero ser bem genérico na minha opinião. Acho o meu amigo um privilegiado por ter se convertido por caminhos tão cheios de obstáculos dos emaranhados das diversas escolas filosóficas que ele percorreu. Eu teria me perdido no inferno de tantas lucubrações. (Para mim, Deus é muito simples.) Vai daí tanta dor pelo seu caminho.
As suas referências a São João da Cruz me levam a vê-lo como um poeta da fé, o que faz da sua obra um caminho muito mais sedutor do que o de outros grandes teólogos filósofos que insistem em explicar Deus ou não-Deus. Mas nada como acompanhar a evolução de um bebê nos nove meses de barriga, ou o desabrochar da semente se tornando uma grande árvore ou um fruto delicioso. São sinais que qualquer mulher, ou que qualquer caipira, por mais ignorantes que sejam, conseguem decodificar para ver aí o milagre da vida e a existência de Deus. Acho que o Boff se perdeu aí, na sua ecoteologia, querendo explicar com tanta filosofia o que não precisa da menor explicação. Engano achar que a Teologia da Libertação busca humanizar Deus; ela busca trazer Deus mais perto da gente, mostrando que a nossa semelhança com Ele é muito mais evidente que a Teologia tradicional consegue mostrar.
Eu, dentro da minha ignorância, admiro aqueles que fazem teologia da mesma maneira que o seo Zé da Sete Vórta faz economia quando sabe por quanto tem que vender no mercado a mandioca que plantou e que colheu no seu quintal. Ele não leu Adam Smith, ou Keynes, ou Mário Henrique Simonsen. E sabe fazer economia.
É isso, meu amigo... “Fazer” economia... “Fazer” teologia. É tudo muito simples. Talvez por isso mesmo é que você, um filósofo e poeta, como todos os filósofos tenha tido uma conversão dolorida; como os poetas, arrebatadora; mas como os ignorantes não a pôde experimentar... Esses não precisam de conversão; Deus se revela a eles com muito mais clareza!

Um comentário:

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