sexta-feira, 21 de abril de 2017

O BEIJO GAY DAS OCTOGENÁRIAS E A INTOLERÂNCIA DAS MINORIAS

Henrique Faria

Eu estava aqui revendo algumas das minhas publicações e me deparei com uma que publiquei no Facebook algum tempo atrás, na ocasião da estreia da novela Babilônia (Rede Globo de Televisão) no dia 16 de março de 2015, quando as atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg protagonizaram o primeiro beijo gay da televisão brasileira. Segue o texto.
Acabo de ser espinafrado por um amigo, por quem tenho admiração pela fluência do seu raciocínio, pela sua lucidez e sabedoria; e respeito, especialmente pela sua opção sexual. Não vai aqui qualquer bajulação à sua pessoa, já que ele me enquadrou no “quem te conhece que te compre”, o que me desqualifica em qualquer tentativa de amansá-lo na sua ira santa de defender as peculiaridades da comunidade gay, mormente em suas expressões de afeto, como foi o beijo lésbico – de mentirinha – entre duas octogenárias – de verdade – levado ao ar no primeiro capítulo de uma novela de TV. Além de não recomendar as minhas considerações (“quem não conhece que te compre”), me priva de “apontar o dedo” por me incluir entre “gente que já fez coisa muito pior na vida”. Estou aqui tentando revolver os nossos vinte e cinco anos de amizade e buscar nessa história alguma confidência que me coloque com um pé para trás por algum ato tão abominável que possa constituir “coisa muito pior (que fiz) na vida”).
Tudo isso por ter feito um comentário em uma rede social num post que não era da sua lavra, mas de uma amiga comum, em que considerei o tal beijo uma questão de estética e de ética e não de moral.
Não “apontei o dedo” para as pessoas que se identificam com uma cena dessas. Quando digo que vejo o beijo lésbico público de duas octogenárias sob o ângulo estético e ético, eu quero dizer que quem quiser que o ache bonito – eu não acho –, e que é uma ruptura com as convenções, o que, de certa forma, alija seus protagonistas do grupo social em que estão inseridos. A ruptura com os padrões éticos é um fator de inclusão no grupo das minorias, não necessariamente no das amaldiçoadas.
Não faço juízo moral de ninguém. Não porque não tenha moral para isso, que não tenho mesmo, mas por achar que a moral, diferente da ética, é relativa. O que é imoral para uma sociedade pode não ser para outra. O que é imoral para um indivíduo pode não ser para outro. Além disso, não tenho estatura para julgar quem quer que seja, sob qualquer aspecto, seja moral, estético ou ético. Aqui eu enfatizo que as minhas considerações que enfezaram o meu amigo não foram um juízo, mas um exercício de liberdade de expressão, a mesma liberdade que ele teve para me incluir entre as pessoas com as quais ele tem um pé atrás ao expressar-se pelo “quem não te conhece que te compre” e ao lançar-me para a vala dos malditos “que se escondem atras (sic) de um (sic) retórica que serve de subterfúgio para dissimular o velho preconceito”, “e de gente que já fez coisa muito pior na vida e vem querer apontar o dedo”.
Quanto ao questionamento que o meu amigo coloca na possibilidade de não podermos desfrutar do mágico momento de um beijo gay em novela por “motivos estéticos e éticos e não por preconceito e falso moralismo”, eu o acalmo e o encorajo. Ainda vamos ver muitos beijos gays na TV e eles serão tão comuns que deixarão de ser polêmicos. Os gays já podem “trocar carinho na pracinha, no shoping (sic), ou qualque (sic) lugar” como é o seu desejo. Que mal tem? Não há lei que os proíbam dessas manifestações de afeto, “desde que seja de forma respeitosa” como ele acentua.
O que eu questiono – e questionei em meu comentário que deu azo para tanta irritação do meu amigo – é a maneira como a sociedade vem sendo manipulada por uma minoria que detém o poder midiático, querendo impor uma cultura na marra. Deixa a coisa fluir naturalmente! Aliás, esse mesmo grupo de profissionais da comunicação que exalta o beijo gay cria estereótipos caricatos dos homossexuais que só servem para acirrar ainda mais o preconceito que, volto a dizer, é muito mais de natureza estética do que moral: precisa a bicha fazer tantos trejeitos – que a mulher não faz – para se afirmar como gay?
Voltando ao assunto, não concordo com o termo “opção sexual”. Ninguém faz “opção sexual”. Cada um é o que é e pronto. Por outro lado, ninguém nasce gay ou hétero. As pessoas nascem homem ou mulher.

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