terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os santos que ignoramos


Henrique Faria

Duas datas envolventes iniciam o mês de novembro: a Festa de Todos os Santos e o Dia de Finados. Talvez por uma sequencia lógica devessem estar em dias trocados, tendo o dia dedicado à memória dos mortos precedendo da festa daqueles que gozam no céu a eterna bem aventurança. Mas no que se trata de eternidade não há lógica. A lógica organiza a razão e o que é eterno transcende o racional. Por isso vamos continuar assim: primeiro os santos, depois os simplesmente falecidos. Nós vamos, hoje, deixar a saudade de lado, para falar da alegria da morte: a passagem do estado natural em que vivemos para a vida transcendental. Vamos falar de todos os santos.
A Festa de Todos os Santos, que a Igreja celebra no primeiro domingo de novembro, é colocada no calendário litúrgico não para reunir os santos de nossa devoção num dia só. Os santos canonizados já têm o seu dia, festejados de janeiro a dezembro, todos eles com a memória incluída nos cultos diários, ainda que alguns se privilegiem de comemorações mais entusiasmadas, como é o caso de São Francisco, Santa Teresinha, São Benedito, São Pedro e São Paulo, Santa Rita de Cássia e muitos outros, alguns até com feriados municipais para alegria dos assalariados que gostam de uma paradinha no meio da rotina mensal do trabalho.
O dia de Todos os Santos é dedicado à memória daquelas pessoas que já se foram e que constituem exemplos de vida, de heroísmo, de dedicação ao próximo, à causa do evangelho. São santos anônimos que não receberam o status de canonizados, que não figuram entre os nomes do “Cânon” da Igreja. São os santos que conhecemos aqui na terra e que ignoramos como santos na eternidade. São pessoas que viveram aqui – algumas até mesmo sem se darem conta de que viviam uma vida evangélica – tendo o evangelho das bem aventuranças como o seu projeto de vida, ou a passagem de Mateus em seu capítulo 25 dos versículos 31 a 45, em que traz o resumo da salvação e a catequese da santidade, quando Jesus se coloca no lugar dos miseráveis e pequeninos para nos dar uma chance de lhe amenizar a fome, a sede, o frio, de cobrir-lhe a nudez, de lhe buscar a cura, e satisfazer a sua necessidade de uma visita.
São pessoas que andaram ao nosso lado, que fizeram da nossa vida o centro da importância da sua própria vida, ou foram aqueles que passaram ao nosso lado e não lhes demos importância porque, aqui na terra, eles não passavam de figurantes do nosso descaso. Quantas pessoas passaram pela nossa vida a quem nem imaginávamos estar preparada a glória da eterna bem aventurança. Esses santos foram as crianças, mártires da fome ou da desnutrição; os doentes a quem negamos o nosso sangue, que morreram porque não houve tempo de uma transfusão ou de um transplante por falta de compatibilidade; os jovens que esquecemos de abraçar, mas que procuraram, mesmo depois de alguns tropeços nesta vida, a superação e a reconquista da dignidade; as velhinhas que abandonamos nos asilos, mas que não largavam do seu tercinho, rezando pela salvação do mundo e, quem sabe, pela ventura de nos dar um abraço no céu para nos agradecer a oportunidade de tê-las abandonado nos braços de Deus; são os velhinhos chatos que se implicavam com as nossas bobagens da juventude e que diziam que um dia iríamos pagar por aquilo.
Entre os todos os santos que celebramos, estão a nossa mãe, que se anulou totalmente pela nossa vida, que nos permitiu nascer e que fez festa quando botamos a nossa carinha no mundo; o nosso pai, que se virou em cinco ou seis, trabalhando como um doido para nos dar a formação que temos hoje; são os dois juntos, abraçadinhos, rindo das nossas peripécias aqui nesta vida e da surpresa que vamos ter quando nos encontrarmos com eles; a nossa vovó, que foi mãe duas vezes, acabando de criar a nossa própria mãezinha que sempre lhe pedia socorro quando não se achava capaz de correr sozinha com as nossas necessidades de crianças doentes.
Entre os santos que celebramos, estão pessoas que nos causarão surpresa – algumas que diziam até que não acreditavam em Deus – que viveram, mesmo sem saber, o carisma das bem aventuranças, pobres de espírito porque viveram apenas em função dos outros, se dedicaram à causa da justiça e foram perseguidas; aquelas que, mesmo passando a vida chorando conseguiram sublimar as suas lágrimas; aquelas que fizeram da mansidão a sua marca indelével e da misericórdia, da compaixão, da generosidade, da partilha uma rotina em sua vida vislumbrando no próximo o centro da sua existência; aquelas das quais ríamos de sua ingenuidade, de sua pureza, de sua falta de maldade; aquelas que procuraram promover a paz.
Entre esses santos estão aquelas pessoas que deram de comer a quem tinha fome, de beber a quem tinha sede; que deram abrigo aos desamparados; que vestiram os descamisados; que se preocuparam com os doentes e os encarcerados, mesmo sem saber que na pessoa desses desvalidos estava o próprio Jesus que, talvez, tenham reconhecido apenas na eternidade.
Entre esses santos estão todas as pessoas de nossa convivência e de nossa história, que a Igreja não privilegiou com uma estátua nos altares. Mas, tenha absoluta certeza, eles estão de igual para igual com aqueles santos que veneramos hoje aqui na terra, para quem fazemos festa, pedimos proteção e intercessão. Eles são todos santos e ninguém é melhor do que ninguém na bem aventurança eterna.

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