domingo, 13 de março de 2011

MAIS SEMELHANTES A ELE DO QUE ELE A NÓS



Henrique Faria

Dê uma espiadinha no evangelho de Mateus, ali no capítulo 4, versículos 1 a 11: o diabo tentando Jesus.
A figura do diabo às vezes diminui a nossa capacidade de entender o transcendente, já que há uma tendência moderna de ignorar a existência do demônio, como se fosse uma lenda, nivelando-se a outras figuras do mal, ou mesmo a simpáticas revelações do tinhoso como o saci-pererê, por exemplo. Não interessa acreditar ou não na existência do demônio que nos legaram, aquele bicho feito de chifre e de rabo, asas enormes de morcego, deturpadas depois da rebelião dos anjos no paraíso, que de figuras mais singelas e meigas tocando cítaras entre puffs de nuvens se transformaram nessas figuras horrendas, vermelhas de fogo, de tridente na mão.
Mas, se o demônio é uma incógnita, o mal não é. O mal existe. E procura instalar-se onde pode vicejar com mais vigor: no nosso coração. O mal é tão poderoso que não poupou nem Jesus de algumas tentações como as nossas que temos hoje. Imagine Jesus, homem de carne e osso como a gente. E pode não ter sido igual a gente no pecado, mas o foi nas tentações, tenha certeza. O evangelho não conta de outras tentações, como a da carne, por exemplo, que o mostraria ainda mais semelhante a nós. Mas, dessa três tentações, origem do mal que é o pai de todos os pecados, ele fala com clareza: o poder, o ter, o ostentar.
Jesus poderia ter transformado as pedras em pães. Poderia ter provado que era protegido de Deus e pulado do alto do templo. Poderia ter se prostrado diante do mal para possuir todos os bens da terra. Em todas essas tentações fica claro que Jesus andou balançando um pouco diante da forma como poderia se apresentar se apresentar ao seu povo logo depois de batizado, quando praticamente inicia a sua vida pública. Entre ser um homem poderoso, que tinha evidentemente a retaguarda de Deus, que poderia fazer milagres para se engrandecer perante sua gente -  isso passou pela sua cabeça - e ser uma pessoa simples, que mesmo fazendo milagres e curando enfermos não tivesse onde repousar sua cabeça,  ele preferiu a segunda opção.
O poder e o ter, sem que se lhes dê um destino social, endurece o coração, insensibiliza e entorpece o homem, desorganiza o projeto de Deus que criou os homens para viverem em comunhão e partilha. Na nossa sociedade alguém precisa ter o poder, mas é preciso que ele seja usado para disciplinar as relações sociais e conduzi-las à paz social. Alguém precisa "ter", mas que seja para partilhar, já que alguns, que por escolhas próprias ou de outros que as fizeram por eles, não têm.
A partilha, que na nossa sociedade tem o nome de distribuição de rendas, também equilibra a paz social.
Se não conseguimos acreditar no demônio, pelo menos vamos tentar entender Jesus que não quis se ostentar com o ter e o poder, permitindo-nos nos fazer mais semelhantes a ele do que ele se fez a nós.

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