domingo, 20 de março de 2011

TRANSFIGURAR O ROSTO DESFIGURADO



Henrique Faria

Todo mundo conhece a história da Transfiguração de Jesus, por isso não vou gastar o meu espaço e o seu tempo se você pode acompanhá-la lendo no evangelho de Mateus, no capítulo 17 , dos versículos 1 a 9.
É uma passagem gloriosa. Jesus se revela majestoso, refulgente, lindo, maravilhoso, como os seus amigos nunca o tinham visto. E nos parece que, apesar de todo o brilho com que Jesus se revelou aos três amigos, ele mesmo não queria que ficassem ali, perplexos, gozando tão magnífica visão. E nos parece também que Jesus não aceitou a proposta de Pedro de que lhes montassem três barracas - uma para ele, outra para Moisés, outra para Elias, que compunham aquele cenário paradisíaco - para permanecerem naquele êxtase por muito tempo.E mais: proibiu-lhes de contarem o que tinham visto, enquanto ele fosse vivo.
Diante do que me parece um contrassenso, eu me pergunto quem é Jesus para nós se não aquele miserável que tem fome de comida e de justiça, sede de água boa, tratada, de saneamento básico que não lhe permita a proliferação de vermes na barriga, além da sede de amor e de carinho, a carência de um colo de mãe, de um abraço de pai, de compreensão de um filho confuso pelo embate de gerações?
Quem é Jesus se não aquele que chora e não é consolado, que se arrasta pelas ruas sem sem recebido; aquele a quem a mansidão se expressa num abandono consentido, já sem ter o que fazer, o que vestir?
Quem é Jesus se não aquele a quem a misericórdia alcança num gesto simples de uma visita ao seu leito de doente, à sua cela de prisão?
Quem é Jesus se não aquele injuriado e perseguido pelas diversas formas de discriminação ou aquele de quem se debocha quando fala em seu próprio nome, revelando-se divino no dia a dia do trabalho, da escola, dos afazeres domésticos?
Com certeza não é o Jesus transfigurado. É o Jesus desfigurado.
E para esse Jesus, às vezes em petição de miséria, não há tempo para se armarem barracas. É preciso descer do monte e agir rápido.
O rosto transfigurado de Jesus se revela no jovem que consegue seu primeiro emprego mesmo sem experiência anterior; no rosto da mãe que abre aquele sorriso gostoso quando o filho diz que "pisou na bola" mas que vai se esforçar para não cair de novo; no do pai quando a filha se senta em seu colo do pai e lhe diz umas "bobagens" como "eu te amo", "você é o meu paizão do coração" ou quando ele chega do trabalho, cansado, abatido, para se revigorar ao ver a família reunida só esperando ele tomar seu banho para se sentarem à mesa do jantar.
O rosto transfigurado de Jesus se revela no rosto do vagabundo estendido pelas calçadas, apagado e sem energia, quando você lhe dá um chutinho bem de leve, quase carinhoso, para lhe perguntar "hei, amigão, você não está com fome?".
São tantos os rostos desfigurados de Jesus pedindo transfiguração. E nesses Jesus desfigurados que encontramos pela vida a transfiguração não acontece por força própria como aconteceu com Jesus no monte Tabor. É preciso que a nossa luz os transfigure e que a sua glória tenha o dedinho do nosso amor.


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