sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM CORAÇÃO POETA SÓ SE ENCANTA. QUEM JULGA É A RAZÃO.


Henrique Faria
Agosto de 1991

Todo mundo tem seu ídolo, seu modelo, seu espelho que possa mirar-se encarnando sua vida, sua ideologia, sua mensagem, sua história. Eu tenho três ídolos.
Um deles, longe de estar sujeito a qualquer escala de comparação, é o maior de todos. Seu nome: Jesus Cristo. Não bastasse a sua divindade (quer você creia ou não), foi o maior dos homens que a humanidade conheceu.
Os outros dois... Bem! Dos outros dois vou contar uma estorinha que bem poderia ter acontecido vinte e quatro anos atrás, quando os três juntos se encontraram na Casa de Jesus.

Foi no dia 9 de outubro de 1967. Isso, aqui na terra, porque na Casa de Jesus o tempo não existe. Os dois se encontraram no céu. Chiquinho, todo remendado, barba por fazer, uma barbinha rala – um ou outro fio mais comprido –, mas de uma fisionomia verdadeiramente angelical. Ernesto, sujo, rasgado sem remendos, fisionomia carregada de mil e uma noites mal dormidas, uma chaga no peito. Recém chegado ao Paraíso, parecia um peixe fora d’água. Ele mesmo não acreditava na paradisíaca visão.
Na terra eram passados mil novecentos e sessenta e sete anos do nascimento do Chefão e quase oitocentos da morte do colega Chico.
Na ante-sala do Paraíso, a diferença entre os dois saltava aos olhos. Entretanto, algumas semelhanças os aproximava e, entre elas, as chagas que ambos carregavam no peito. Chico tinha quatro a mais: uma em cada mão e mais duas – uma em cada um dos pés – havidas pelo excelso merecimento que conquistara ainda em sua vida temporal.
Ernesto chegou meio desajeitado, desprovido daquela afoiteza e coragem que o levaram ao holocausto nas selvas da América.
Chico vibrava, desapontado, é verdade, pelo novo companheiro não trajar o seu burel marrom, marca registrada daqueles que na terra se empenhavam na defesa dos oprimidos. Ernesto, no entanto, trazia um coração muito parecido com o coração do Chico. Muito parecido...
Braços abertos, os estigmas emitindo envolvente e estranha luz. Chico enfeitiçava o novo morador do Paraíso.
- Você não é o Francisco de ...
A pergunta foi interrompida por um “psiu” do poverello. Um sorriso doce entremeou a observação:
- O Homem ta chegando...
Ernesto tremeu nas bases.
Pedrão vinha na frente. Abrindo alas e espantando uns anjinhos teimosos que insistiam em tocar “La cumparsita” em suas liras. O Chefe, bonito e glorioso da glória que a ressurreição lhe eternizara o corpo, parecia não se incomodar com o que Pedro julgava ser um sacrilégio. Apenas uma doce ansiedade o apressava um pouco, divinamente louco por conhecer o novo inquilino.
- Deixa, Pedro! Tá tão bonito...
Pedrão não se emendava:
- Mas, Mestre, isso não é música pra se tocar no Paraíso!
O Mestre nem ligou. Deu um tapa no ar em frente ao próprio rosto como quem diz “deixa pra lá!”.
- Chame o Ernesto!
É verdade que Pedrão ficou meio surpreso. Tanto tempo se passara e ainda não se acostumara com as extravagâncias do seu Chefe.
Então, os anjinhos se empolgaram. E, num angelical pout-pourri sapecaram “La Cumparsita”, “Mano a mano”, “Mi Buenos Aires querido”, “Por uma cabeza” e ainda arriscaram uns acordes de “Don’t cry for me, Argentina”. Saiu muito bonito.
Ernesto ficou mais à vontade.
- Não precisa de formalidades – sussurrou Chiquinho – o Homem é gente boa.
- Pois, não, Chefe!
- Vem cá, Chê! – Jesus posou de gaúcho – Meu Pai fala muito bem de ti!
- De mim?!
Ernesto ficou pasmado.
- Você mesmo! Afinal eu lhe devo alguns favores...
- O quê?!
Parecia que o barbudo ia ter um troço.
- Isso mesmo! Há algum tempo eu estive com fome e você me alimentou; tive sede e você me deu água...
Cada vez mais surpreso, Ernesto duvidava.
- Não acredito...
- E mais: estive doente e você tratou de mim; preso e você me visitou... Cheguei a ficar sem roupa e você me vestiu. ..
- O quê?! Quando foi que fiz isso pro senhor?
- Deixa o “senhor” de lado, Chê!
Um sorriso doce, quase escondido no canto da boca, denunciava que o Mestre gostava também de reservar pequenas surpresas:
- Você se lembra daqueles leprosos da Amazônia? Dos favelados de La Paz? Daqueles índios do Peru? Dos caribenhos miseráveis de Sierra Maestra? Pois é... Foi pra mim que você fez tudo aquilo.
Ernesto não entendia nada.
Mais do que depressa o Mestre lhe cingiu os rins e num abraço amigo o conduziu por entre as nuvens.
Pedrão, ainda mais surpreso, confidenciou com Francisco:
- Não me conformo! Mas, o Homem sabe das coisas... Manda quem pode, obedece quem tem juízo...
E saiu resmungando:
- Só me faltava essa...
Chiquinho esfregava as mãos de contente. E andando apressado deixava um rastro de pequeninas estrelas que um ou outro anjinho retardatário apanhava para a sua coleção.

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